Quando na rósea nuvem sobe o dia

 

Quando na rósea nuvem sobe o dia,
De risos esmaltando a Natureza,
Bem que me aclare as sombras da tristeza,
Um tempo sensabor me principia.

Quando, por entre os véus da noite fria,
A máquina celeste observo acesa,
De angústia, de terror a imagens presa
Começa a devorar-me a fantasia.

Por mais ardentes preces que lhe faço,
Meus ais não ouve o númen sonolento,
Nem prende a minha dor com ténue laço.

No Inferno se me troca o pensamento;
Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo
Dias de enjoo e noites de tormento?


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

Comments