Pavorosa Ilusão Da Eternidade


Pavorosa ilusão da eternidade,

Terror dos vivos, cárcere dos mortos,

D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;

Sistema da política opressora,

Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos

Forjou para a boçal credulidade;

Dogma funesto, que o remorso arraigas

Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:

Dogma funesto, detestável crença,

Que envenenas delicias inocentes!

Tais como aquelas que no céu se fingem:

 

Fúrias, Cerastes, Dragos, Centímanos,

Perpetua escuridão, perpetua chama;

Incompatíveis produções do engano,

Do sempiterno horror terrível quadro

(Só terrível aos olhos da ignorância)

Não, não me assombram tuas negras cores:

Dos homens o pincel e a mão conheço:

 

Trema de ouvir sacrílego ameaço

Quem de um Deus, quando quer, faz um tirano.


Trema a superstição; lágrimas, preces,

Votos, suspiros arquejando espalhe,

Coza as faces co'a terra, os peitos fira,

Vergonhosa piedade, inútil vênia

Espere às plantas de impostor sagrado,

Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:

 

Que às leis, que às propensões da natureza

Eternas, imutáveis, necessária,

Chama espantosos, voluntários crimes;

Que as vidas paixões que em si fomenta,

Aborrece no mais, nos mais fulmina:

 

Que molesto jejum roaz cilico

Com despótica voz à carne arbitra,

E, nos ares lançando a fútil bênção,

Vai do grã tribunal desenfadar-se

Em sórdido prazer, venais delícias,

Escândalo de Amor, que dá, não vende.

 

Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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