Nos torpes laços de beleza impura

 

Nos torpes laços de beleza impura
Jazem meu coração, meu pensamento;
E, forçada ao servil abatimento,
Contra os sentidos a razão murmura.

Eu, que outrora incensava a formosura
Das que enfeita o pudor gentil e isento,
A já corrupta ideia hoje apascento
Nos falsos mimos de venal ternura.

Se a vejo repartir prazer e agrado
Àquele, a este, coa fatal certeza
Fermenta o vil desejo envenenado.

Céus! Quem me reduziu a tal baixeza?
Quem tão cego me pôs? ... Ah! foi o meu Fado,
Que tanto não podia a Natureza.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

Comments