Inda em meu frágil coração fumega

 

Inda em meu frágil coração fumega
A cinza desse fogo em que ele ardia;
A memória da tua aleivosia
Meu sossego ainda aqui desassossega.

A vil traição, que as almas nos despega,
Não tem cabal poder na simpatia;
Gasta o mar importuno a rocha fria,
Melhor que o desengano a paixão cega.

Bem como o flavo Sol, que a Terra abraça,
Por mais que o veja densamente oposto,
Atraído vapor fere e repassa:

Tal, para misturar gosto e desgosto,
Na sombra de teus crimes brilha a graça,
Com que o pródigo Céu criou teu rosto.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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