"I - Sonetos"


Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;
Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados :

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.

De suspirar em vão já fatigado,
Dando trégua a meus males eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido, e mirrado :

Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
"eu venho terminar tua agonia ;
morre, não peneis mais, oh desgraçado ! "

quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
que armado de cruentos passadores
aparte, e lhe diz com voz irada :

"Emprega noutro objecto os teus rigores ;
que esta vida infeliz está guardada
para vítima só de meus furores. "

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado:

Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minh'alma presa
À vil matéria lânguida, me corte:

Consola-me este horror, esta tristeza;
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da Natureza.

Mavorte, porque em pérfida cilada
O cruel moço alígeto o ferira,
Não faz caso da mãe, que chora e brada,
Quer punir o traidor, que lhe fugira:

Na sinistra o pavês, na dextra a espada,
Nos ígneos olhos fuzilante a ira,
Pule à negra carroça ensanguentada,
Que Belona infernal côas Fúrias tira:

Assim parte, assim voa; eis que vê posto
No colo de Marília o deus alado,
No colo aonde tem mimoso encosto:

Já Marte arroja as armas, e aplacado
Diz, inclinando o formidável rosto:
"Valha-te, Amor, esse lugar sagrado! ".

Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios voando os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos:

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem:
E em arte de Minerva se não rendem
Teus alvos curtos dedos melindrosos:

Resiste em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura:

És dos céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura
Para criar tua alma e teu semblante.

Oh, tranças, de que Amor prisões me tece,
Oh, mãos de neve, que regeis meu fado!
Oh tesouro! oh mistério! oh par sagrado ,
Onde o menino alígero adormece !

Oh ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! oh gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse !

Oh! lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira !

Oh perfeições! oh dons encantadores !
De quem sóis? ...Sois de Vénus? - é mentira
Sois de Marília, sois de meus amores.

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o subtil nordeste
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros, e Amores,
E torna o fresco Tejo a cor celeste ;

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza !

Grato silêncio, trêmulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes, e aos amores,
Hoje serei feliz ! - longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo,
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir : porém segredo !

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o pai dos numes :

Cale-se o caso a Jove omnipresente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa,
Apoucando os excessos da firmeza.
Rebatendo os assaltos da ternura:

Temo que a tua singular candura
Leve o tempo fugaz, nas asas presa
Que é quase sempre o vício da beleza,
Génio imutável, condição perjura:

Temo; e se o fado meu, fado inimigo
Confirmar impiamente este receio,
Espectro perseguidor, que anda comigo,

Com rosto, alguma vez de mágoa cheio ,
Recorda-te de mim, dize contigo :
'era fiel, amava-me e deixei-o "

Enquanto o sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, oh Natureza
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento:

Enquanto, alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento:

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente,
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipresente:

Eu louco, cego, eu mísero, eu perdido
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais, e de mim mesmo ando esquecido ..

Por esta solidão, que não consente
Nem do sol, nem da Lua a claridade,
Ralado o peito já pela saudade
Dou mil gemidos a Marília ausente:

De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade,
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas mãos, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores...

Ah, trazei - me ilusões, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, oh sonhos, entre flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

Marília, se em teus olhos atentara,
Do estelífero sólio reluzente,
Ao vil mundo outra vez o omnipotente,
O fulminante Júpiter baixara,

Se o deus, que assanha as Fúrias, te avistara,
As mãos de neve, o colo transparente,
Suspirando por ti, do caos ardente,
Sugeriu à luz do dia, e te roubara:

Se a ver-te de mais perto o Sol descera,
No áureo carro veloz dando-te assento
Até da esquiva Dafne se esquecera:

E se a força igualasse o pensamento,
Oh alma da minh'alma, eu te of'recera
Com ela a Terra, o Mar, e o Firmamento.

O corvo grasnador e o mocho feio
O sapo berrador e a rã molesta,
São meus únicos sócios na floresta,
Onde carpindo estou, de angústia cheio:

Perdi todo o prazer, todo o recreio,
Ah, malfadado amor, paixão funesta!
Urselina perdi, nada me resta,
Madre terra! Agasalha-me em teu seio;

Da víbora mordaz permite, oh Sorte,
Que nos matos aspérrimos que piso
As plantas me envenene o ténue corte!

Ah! Que é das graças? Que é do paraíso?
A minh'alma onde está? Quem logra...oh Morte,
Quem logra de Urselina o doce riso?

Ânsias terríveis, íntimos tormentos,
Negras imagens, hórridas lembranças,
Amargosas, mortais desconfianças,
Deixai-me sossegar alguns momentos:

Sofrei que logre os vãos contentamentos
Que sonham minhas doidas esperanças;
A posse de alvo rosto, e loiras tranças,
Onde presos estão meus pensamentos:

Deixai-me confiar na formosura,
Cruéis! Deixai-me crer num doce engano,
Blasonar de fantástica ventura.

Que mais mal me quereis, que maior dano
Do que vagar nas trevas da loucura,
Aborrecendo a luz do desengano?

Olha , Marília, as flautas dos pastores,
Que bom que soam, como estão cadentes !
Olha o Tejo a sorrir-te! Olha não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores ?

Vê como ali, beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes !
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores !

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira :

Que alegre campo! Que manhã tão clara !
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Fiei-me nos sorrisos de ventura
Em mimos femininos, como fui louco !
Vi raiar o prazer, porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e ouço,
Pareço, até no tom lúgubre, e rouco
Triste sombra a carpir na sepultura:

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce, e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!

Ah! Não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

Há pouco a mãe das Graças, dos Amores,
Gerada pela espuma cristalina,
Baixou da etérea região divina
Nas asas dos Favónios voadores:

"Oh das margens do Tejo habitadores!
hoje torna a luzir (disse Ericina)
o ledo instante em que nasceu Marina,
Ínclito fruto de ínclitos maiores:

Do Céu, do Mar, da Terra, os soberanos
Imprimindo-lhe encantos a milhares,
Criaram nela a glória dos humanos:

Eia, cantai-lhe os dotes singulares,
Louvai seus olhos, aplaudi seus anos,
Queimai-lhe aromas, erigi-lhe altares "

Os suaves eflúvios, que respira
A flor de Vénus, a melhor das flores,
Exalas de teus lábios tentadores,
Oh doce, oh bela, oh desejada Elmira;

A que nasceu das ondas, se te vira,
A seu pesar cantara os teus louvores;
Ditoso quem por ti morre de amores!
Ditoso quem por ti, meu bem, suspira!

E mil vezes ditoso o que merece
Um teu furtivo olhar, um teu sorriso,
Por quem da mãe formosa Amor se esquece!

O sacrílego ateu, sem lei, sem siso,
Contemple-te uma vez, que então conhece
Que é força haver um Deus, e um paraíso.

Meu frágil coração, para que adoras
Para que adoras, se não tens ventura ?
Se uns olhos, de quem ardes na luz pura,
Folgando estão das lágrimas que choras ?

Os dias vês fugir, voar as horas
Sem achar neles visos de ternura;
E inda a louca esp'rança te figura
O prêmio dos martírios, que devoras!

Desfaz as trevas de um funesto engano,
Que não hás-de vencer a inimizade
De um gênio contra ti sempre tirano:

A justa, a sacrossanta divindade
Não força, não violenta o peito humano,
E queres constranger-lhe a liberdade?

Os garços olhos, em que o Amor brincava,
Os rubros lábios, em que o Amor se ria,
As longas tranças, de que o Amor pendia,
As lindas faces, onde Amor brilhava:

As melindrosas mãos, que Amor beijava,
Os níveos braços, onde Amor dormia,
Foram dados, Armândia, à terra fria,
Pelo fatal poder que a tudo agrava;

Seguiu-te Amor ao tácito jazigo,
Entre as irmãs cobertas de amargura;
E eu que faço ( ai de mim ! ) como não sigo!

Que há no mundo que ver, se a formosura,
Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo
Jazem no eterno horror da sepultura?

Urselina gentil, benigna e pura,
Eis nas asas subtis de um ai cansado
A ti meu coração voa alagado
Em torrentes de sangue, e de ternura;

Põe-lhe os olhos, meu bem, vê com brandura
Seu miserável, doloroso estado,
Que nas garras da morte já cravado
A fé, que te jurava, inda te jura :

Põe-lhe os olhos, meu bem, suavemente,
Põe-lhe os mimosos dedos na ferida,
Palpa de Amor a vítima inocente :

E por milagre deles, oh querida,
Verás cerrar-se o golpe, e de repente
Em ondas de prazer tornar-lhe a vida .

Em veneno letífero nadando
No roto peito o coração me arqueja;
E ante meus olhos hórrido negreja
De morais aflições espesso bando;

Por ti, Marília, ardendo, e delirando
Entre as garras aspérrimas da Inveja,
Amaldiçoo Amor, que ri, e adeja
Pelos ares,cós Zéfiros brincando;

Recreia-se o traidor com meus clamores -
E meu cioso pranto... oh Jove, oh nume
Que vibras os coriscos vingadores!

Abafa as ondas do tartáreo lume,
Que para os que provocam teus furores
Tens inferno pior, tens o ciúme.

Oh retrato da morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor, que a ti sòmente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Vinde, Prazeres, que por entre as flores,
Nos jardins de Citera andais brincando,
E vós, despidas, Graças, que dançando
Trinais alegres sons encantadores:

Deusa dos gostos, deusa dos amores,
Ah! dos filhinhos teus ajunta o bando,
E vem nas asas de Favónio brando
Dar força, dar beleza a meus louvores.

Da linda Anarda minha voz aspira
A cantar o natal; tu, por clemência,
O teu fiel cantor, deidade, inspira;

Do trácio vate empresta-me a cadência,
E faze que mereça a minha lira
Os cândidos sorrisos da inocência.

Canta ao som dos grilhões o prisioneiro,
Ao som da tempestade o nauta ousado,
Um, porque espera o fim do cativeiro,
Outro, antevendo o porto desejado ;

Exposta a vida ao tigre mosqueado
Gira sertões o sôfrego mineiro,
Da esperança dos lucros encantado,
Que anima o peito vil, e interesseiro:

Por entre armadas hostes destemido
Rompe o sequaz do horrífico Mavorte,
Co triunfo, côa glória no sentido:

Só eu ( tirano Amor ! tirana Sorte ! )
Só eu por Nise ingrata aborrecido
Para ter fim meu pranto espero a morte.

Triste quem ama, cego quem se fia
Da feminina voz na vã promessa!
Aspira a vê-la estável! Mais depressa
O facho apagará, que espalha o dia :

Alada exalação, que na sombria
Tácita noite os ares atravessa,
Foi comigo a paixão volúvel dessa
Que o peito me afagava, e me feria:

Do desengano o bálsamo lhe aplico,
E a teus laços, Amor, sem medo exponho
Dos benéficos céus o dom mais rico:

Vejo mil Circes plácido, risonho;
E se fé me prometerem, ouço e fico
Como quem despertou de aéreo sonho.

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei do Amor, se a fôrça da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas,

É teu fim, seu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:

Queres que fuga de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Oh trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra, e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza:

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que vós minha tristeza;

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura:

Volvei pois, sombras vãs, ao fogo eterno :
E lamentando a minha desventura,
Movereis a piedade o mesmo inferno.

Já o Inverno, espremendo as cãs nervosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao Pólo em serras escumosas ;

Oh benignas manhãs! Tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

Voltai, retrocedei, formosos dias;
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias ;

E ao ver-te sentirá minh'alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias
Da estação, que remoça a Natureza.

Mimosa, linda Anarda, atende, atende
Às doces mágoas do rendido Elmano;
Cum meigo riso, cum suave engano
Consola o triste amor, que não te ofende:

De teus cabelos ondeados pende
Meu coração, fiel para seu dano;
Côa luz dos olhos teus Cupido ufano
Sustenta o puro fogo, em que me acende;

Causa gentil das lágrimas que choro,
A tudo te antepõe minha ternura,
E quanto adoro o céu, teu rosto adoro:

O golpe, que me deste, anima e cura...
Mas ai! que em vão suspiro, em vão te imploro :
Não pertence a piedade à formosura.

Oh deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importunos astros vigilantes;

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio da Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem de amor os sôfregos instantes;

Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarde ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire,
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.

O ledo passarinho, que gorjeia
D'alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:

O Sol, que o céu diáfano passeia,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da aurora alegre e pura,
A rosa, que entre os zéfiros ondeia;

A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glorias que consigo,
A deusa das paixões, e de Cítera:

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
Nada se pode comparar contigo.

De cima dessas pedras escabrosas
Que pouco a pouco as ondas têm minado,
Da lua co reflexo prateado
Distingo de Marília as mãos formosas:

Ah ! que lindas que são, que melindrosas !
Sinto-me louco, sinto-me encantado;
Ah! Quando elas vos colhem lá no prado,
Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, oh rosas !

Deuses ! céus, tudo o mais que tendes feito
Vendo tão belas mãos, me dá desgosto ;
Nada, onde elas estão, nada é perfeito.

Oh quem pudera uni-las ao meu rosto!
Quem pudera aperta-las no meu peito!
Dar-lhe mil beijos, e expirar de gosto!

Debalde um véu ocioso, oh Nise, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo;
Tudo o que escondes, tudo o que não vejo
A mente audaz e alígea descobre:

Por mais e mais que as sentinelas dobre
A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,
Teus braços logro, teus encantos beijo,
Por milagre da idéia afoita, e nobre;

Inda que prêmio teu rigor me negue,
Do pensamento a indômita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue:

Que pode contra Amor a tirania,
Se as delícias , que a vista não consegue,
Consegue a temerária fantasia ?

Das faixas infantis despido apenas
Sentia o sacro fogo arder na mente;
Meu retro coração inda inocente,
Iam ganhando as plácidas Camenas ;

Faces gentis, angélicas, serenas,
De olhos suaves o volver fulgente,
Da idéia me extraíam de repente
Mil simples, maviosas cantinelas

O tempo me soprou fervor divino,
E as Musas me fizeram desgraçado,
Desgraçado me fez o Deus Menino ;

O Amor quis esquivar-se, e ao dom sagrado :
Mas vendo no meu gênio o meu destino,
Que havia de fazer ? Cedi ao fado.

Minh'alma se reparte em pensamentos
Todos escuros, todos pavorosos;
Pondero quão terríveis, quão penosos
São, existência minha, os teus momentos :

Dos males que sofri, cruéis, violentos,
A Amor, e aos Fados contra mim teimosos,
Outro inda mais tristes, mais custosos
Deduzo com fatais pressentimentos.

Rasgo o véu do futuro, e lá diviso
Novos danos urdindo Amor e aos Fados,
Para roubar-me a vida após do siso.

Ah! Vem, Marília, vem com teus agrados,
Com teu sereno olhar, teu brando riso
Furtar-me a fantasia a mil cuidados.

O Céu não te dotou de formosura,
De atractivo exterior, e a Natureza
Teu peito inficionou côa vil torpeza
De ingrata condição, falaz e impura;

Influiu-me os extremos da ternura
A Constancia, o fervor, e a singeleza,
Esses dons mais gentis que a gentileza,
Dons, que o tempo fugaz não desfigura;

Apesar da traição, do fingimento
Que te inflama, e desluz, se envela e pára
Em ti, alma infiel, meu pensamento;

Nas paixões a razão nos desampara,
Se a razão presidisse ao sentimento,
Tu morrerás por mim, eu não te amara.

Às margens do Regaça cristalino
Nos olhos de Tirseia ardi contente;
Brandos olhos gentis, dos quais pendente
Estava o meu prazer, e o meu destino;

O tenro Deus,o cândido Menino
Pagava meu fervor puro, inocente;
Mas cedo me impeliu a sorte inclemente
Para vós, tristes margens, que abomino;

Aqui desde que aponta a luz febeia
De lugar em lugar deliro, e corro,
Com suspeitas nutrindo a turva idéia.

Não posso contra Amor achar socorro;
Perdi todo o meu bem, perdi Tirseia
Ela vive sem mim, sem ela eu morro.

Que idéia horrenda te possui, Elmano?
Que ardente frenesi teu peito inflama?
A razão te alumie, apaga a chama,
Reprime a raiva do ciúme insano:

Esperanças consome, ou vive ufano,
Ah! Foge , ou cinge da vitória a rama :
Ama-te a bela Armia, ou te não ama?
Seus ais são da ternura, ou são do engano?

Se te ama, não consternem teus queixumes
Os olhos de que estás enfeitiçado,
Do puro céu de Amor benignos lumes:

Se outro n'alma de Armia anda gravado,
Que fruto hás de colher dos vãos ciúmes?
Ser odioso, além de desgraçado.

Às águas e às areias deste rio
Às flores, e aos Favórios deste prado,
Meus danos conto, minhas mágoas fio,
Dou queixas contra Ismene, Amor e o Fado:

A paz do coração posta em desvio,
O gosto em desenganos sufocado,
Lágrimas com lembranças desafio,
E pela tarda morte às vezes brado;

Tão maviosos sãos meus ais mesquinhos,
Tanto pode a paixão que em mim suspira,
Que se esquecem das mães os cordeirinhos:

O vento não se mexe, nem respira;
Deixam de namorar-se os passarinhos,
Para me ouvir chorar ao som da lira.

O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia;
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, em crespos montes levantado :

Desfeito em furacões o vento irado,
Pelos ares zunindo a solta areia,
O pássaro noturno, que vozeia
No agoureiro cipreste além pousado;

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme, e saudade, a que ando, afeito:

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.

Nos torpes laços de beleza impura
Jazem meu coração , meu pensamento;
Esforçada ao servil abatimento
Contra os sentidos a razão murmura:

Eu, que outrora incensava a formosura,
Das que enfeita o pudor gentil, e isento,
A já corrupta idéia hoje apascento
Nos falsos mimos de venal ternura:

Se a vejo repartir prazer, e agrado
Àquele, a este, côa fatal certeza
Fermenta o vil desejo envenenado;

Céus ! quem me reduziu a tal baixeza ?
Quem tão cego me pôs ? ..ah! foi meu fado,
Que tanto não podia a Natureza.

Perdi tudo ( ai de mim ! ) perdi Marfida,
Marfida, a glória minha,a minha amada ;
Tenra flor, a esperança malograda
Do mimoso matiz caiu despida :

Pede meu coração mortal ferida,
Só aos ditosos a existência agrada ;
Vida entre angústias equivale ao nada,
No risonho prazer consiste a vida.

Eia, amante infeliz, teu fim procura !
Fantástico terror não te reporte,
Nos túmulos não reina a formosura.

Diga triste letreiro a minha sorte ;
Daí-me piedosa sombra à sepultura
Teixas, ciprestes, árvores da morte.

Lá onde o Fado impenetrável mora,
Voa o menino Amor entre os Amores:
Loureja a trança,que matizam flores,
Cintila o facho, que a Razão devora :

Entra, saúda o nume, ao nume implora
Que de Marília os olhos tentadores
Vejam sempre ante as Graças, e os Louvores
De seus anos gentis surgir a aurora :

Fronte rugosa vezes três sacode
O deus, cujo poder tudo atropela,
E às súplicas de Amor destarte acode :

"Escape às minhas leis Marília bela,
seja, seja imortal ; durar não pode,
o mundo sem amor, amor sem ela ".

Quantas vezes , Amor, me tens ferido ?
Quantas vezes, Razão, me tens curado ?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido !

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até reagia a mão do fado,
Onde o sol, bem de todos, lhe é vedado
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo de existência à morte !

Travam-se gosto, e dor ; sossego, e lida ;
É da lei da Natureza ,é lei da sorte
Que seja o mal e o bem matriz da vida.

o h tu, consolador dos malfadados,
Oh tu, benigno dom da mão divina,
Das mágoas saborosa medicina,
Tranquilo esquecimento dos cuidados:

Aos olhos meus, de prantear cansados,
Cansados de velar, teu voo inclina;
E vós, sonhos de amor, trazei-me Alcina,
Dai-me a doce visão de seus agrados:

Filha das trevas, frouxa sonolência,
Dos gostos entre o férvido transporte
Quanto me foi suave a tua ausência!

Ah! findou para mim tão leda sorte;
Agora é só feliz minha existência
No mudo estado, que arremeda a morte.

Tu, maligno dragão, cruel harpia,
monstro dos monstros, fúria dos infernos,
que em vil murmuração, ralhos eternos
Estragas sem descanso a noite, e o dia:

Tu, que nas horas em que o mocho pia,
Caluniaste meus suspiros ternos,
Sacode a carga de noventa invernos
Nas descarnadas mãos da morte fria:

Cai de chofre no báratro profundo,
Cai nas entranhas da voraz fornalha,
Deixa em sossego o miserável mundo:

E entre a maldita, réproba canalha,
Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Arde, murmura, amaldiçoa, e ralha.

Usurpando um minuto a meu lamento
Amigo sono os olhos me ocupava,
E enquanto o débil corpo descansava,
Velava amor, velava o pensamento:

Eis que em deserto e lúgubre aposento,
Que semimorta luz mais afeava,
Cri, Gertrúria (ai de mim!) que te avistava
Já sem cor, já sem voz, já sem alento:

Súbito acordo em lágrimas banhado,
E, das trevas palpando o véu medonho
Em vão busco teu corpo delicado:

Mas inda em ânsias trémulo suponho
Que me vaticinou meu negro fado
Dos males o pior no horrível sonho.

A lva Gertrúria minha, a quem saudoso
Mando trémulos ais enternecidos;
Gertrúria, que encantaste os meus sentidos
Cum meigo riso, cum olhar piedoso:

Àmor, o injusto Amor, nume doloso,
insensível penedo a meus gemidos,
Me exala sobre os tímidos ouvidos
Estas vozes cruéis em tom raivoso:

"Tu, que já desfrutaste os meus favores,
tu, que na face de Gertrúria bela
Nêctar bebeste, mitigaste ardores,

Não tornarás, não tornarás a vê-la:
lamenta, desgraçado, os teus amores,
Acusa, desgraçado, a tua estrela."

Usurpando um minuto a meu lamento
Amigo sono os olhos me ocupava,
E enquanto o débil corpo descansava,
Velava amor, velava o pensamento:

Eis que em deserto e lúgubre aposento,
Que semimorta luz mais afeava,
Cri, Gertrúria (ai de mim!) que te avistava
Já sem cor, já sem voz, já sem alento:

Súbito acordo em lágrimas banhado,
E, das trevas palpando o véu medonho,
Em vão busco teu corpo delicado:

Mas inda em ânsias trémulo suponho
Que me vaticinou meu negro fado
Dos males o pior no horrível sonho.

Alva Gertrútia minha, a quem saudoso
Mando trémulos ais enternecidos;
Gertrúria, que encantaste os meus sentidos
Cum meigo riso, cum olhar piedoso:

Amor, o injusto Amor, nume doloso,
1nsensível penedo a meus gemidos,
Me exala sobre os tímidos ouvidos
Estas vozes cruéis em tom raivoso:

"Tu, que já desfrutaste os meus favores,
Tu, que na face de Gertrúria bela
Néctar bebeste, mitigaste ardores,

Não tornarás, não tornarás a vê-Ia:
Lamenta, desgraçado, os teus amores,
Acusa, desgraçado, a tua estrela."

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,
Mansa corrente deleitosa, amena,
Em cuja praia o nome de Filena
Mil vezes tenho escrito, e mil beijado:

Nunca mais me verás entre o meu gado
Soprando a namorada e branda avena,
A cujo som descias mais serena,
Mais vagarosa para o mar salgado:

Devo enfim manejar por lei da sorte
Cajados não, mortíferos alfanges
Nos campos do colérico Mavorte;

E talvez entre impávidas falanges
Testemunhas farei da minha morte
Remotas margens, que humedece o Ganges.

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza! ...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

A deja, coração, vai ter aos lares,
Ditosos lares, que Gertrúria pisa;
Olha, se inda te guarda a fé mais lisa,
Vê, se inda tem pesar dos teus pesares:

No fulgor dos seus olhos singulares
Crestando as asas, tua dor suaviza,
Amor de lá te chama, te divisa,
Interpostos em vão tão longos mares:

Dize-lhe, que do tempo o leve giro
Não faz abalo em ti, não faz mudança,
Que ainda lhe és fiel neste retiro:

Sim, pinta-lhe imortal minha lembrança;
Dá-lhe teus ais, e pede-lhe um suspiro,
Que alente, coração, tua esperança.

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
dos mais desprezíveis desprezado:

Da figueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado:

Mas ah! Que bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem pois, oh nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!

Melizeu, o menor entre os nascidos,
De face cadavérica e nojosa,
Tísico em verso, apoquentado em prosa,
Hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos:

Soltando dissonantes alaridos
Da boca transversal erma, e gulosa,
Insulta a quem de Febo os mimos goza,
Estafa-se em preceitos não cumpridos:

Ao vate Elmano plagiário chama,
Sendo o mais desprezível plagiário,
Que o que pilha desluz, corrompe, infama:

Profanador do Aónio santuário,
Lobisomem do Pindo, orneia, ou brama,
Até findar no Inferno o teu fadário!

Quem se vê maltratado, e combatido
Pelas cruéis angústias da indigência
Quem sofre de inimigos a violência,
Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido
Achar nos Céus, ou nos mortais clemência,
Quem chora finalmente a dura ausência
De um bem, que para sempre está perdido:

Folgará de viver, quando não passa
Nem um momento em paz, quando a amargura
O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura
Que a vida para os tristes é desgraça,
A morte para os tristes é ventura.

Meu nome pouco a pouco aos Céus levanto;
— Bocage

A ceso no almo ardor, que a mente inflama.
Vivo de Amor, de Amor suspiro e canto;
Na face agora o riso, agora o pranto,
De árvore tua, oh Febo, eu cinjo a rama:

Prezo a doce moral, na voz da fama
Meu nome,pouco a pouco aos céus levanto
Mas turba vil, que abato, anseio e espanto,
Urde em meu dano abominável trama;

Réu me delata de hórrida maldade,
Projecta aniquilar-me o bando rude,
Envolto na leteia escuridade:

Que falsa ideia, oh zoilos, vos ilude?
Furtais-me a paz? Furtais-me a liberdade?
Fica-me a glória, fica-me a virtude.

B em hajas, oh Morfeu! À fantasia
Que cena divinal me deste agora!
Nise, qual sai da noite a grata aurora,
Surgiu-me dentre as sombras da agonia.

Mais belo inda a saudade me fingia
O gesto encantador, que os céus namora;
Cuido que inda me afaga, que inda chora
Pranto, que morta flor viver faria.

Graças oh nume, de meus ais magoado!
Alta mercê meu coração te deve,
Por.este acinte, que fizeste ao fado:

Só tua divindade a tal se atreve;
Mas ah! Que eras prazer de um desgraçado
Sempre mostraste, oh sonho, em ser tão breve.

Em sórdida masmorra aferrolhado,
De cadeias aspérrimas cingido,
Por ferozes contrários perseguido,
Por línguas impostoras criminado:

Os membros quase nus, o aspecto honrado
Por vil boca, e vil mão roto, e cuspido,
Sem ver um só mortal compadecido
De seu funesto, rigoroso estado:

O penetrante, o bárbaro instrumento
De atroz, violenta, inevitável morte
Olhando já na mão do algoz cruento:

Inda assim não maldiz a iníqua sorte,
Inda assim tem prazer, sossego, alento,
O sábio verdadeiro, o justo, o forte.

Tu, que em torpes desejos atolado
Vergonhosos prostíbulos frequentas:
Tu, que os olhos famintos alimentas
No cofre, de tesouros atulhado:

Tu, que do ouro e da púrpura adornado
Quase de igual a Júpiter ostentas,
bebendo as frases vis, e peçonhentas
Do bando adulador, que tens ao lado:

momentos, que desonrais a humanidade,
Desprezando a pobreza atribulada,
E transgredindo a lei da caridade:

O Desengano ouvi, que assim vos brada:
"Tremei da pavorosa eternidade,
Tremei filhos do pó, filhos do nada!"

Q h Rei dos reis, oh Árbitro do mundo,
Cuja mão sacrossanta os maus fulmina,
E a cuja voz terrífica, e divina
Lúcifer treme no seu caos profundo!

Lava-me as nódoas do pecado imundo,
Que as almas cega, as almas contamina:
O rosto para mim piedoso inclina,
Do eterno império Teu, do Céu rotundo:

Estende o braço, a lágrimas propício,
Solta-me os ferros, em que choro e gemo
Na extremidade já do precipício:

De mim próprio me livra, oh Deus supremo!
Porque o meu coração propenso ao vício
É, Senhor, o contrário que mais temo.

Nos campos o vilão sem sustos passa,
inquieto na corte o nobre mora;
O que é ser infeliz aquele ignora,
Este encontra nas pompas a desgraça:

Aquele canta e ri; não se embaraça
Com essas coisas vãs que o mundo adora:
Este( oh cega ambição!) mil vezes chora,
Porque não acha bem que o satisfaça:

Aquele dorme em paz no chão deitado,
Este no ebúrneo leito precioso
Nutre, exaspera velador cuidado:

Triste, sai do palácio majestoso;
Se hás-de ser cortesão, mas desgraçado,
Antes ser camponês, e venturoso!

Mais vale que delire o pensamento - Bocage

Neste horrível sepulcro da existência
O triste coração de dor se parte;
A mesquinha razão se vê sem arte,
Com que dome a frenética impaciência:

Aqui pela opressão, pela violência
Que em todos os sentidos se reparte,
Transitório poder quer imitar-te,
Eterna, vingadora omnipotência!

Aqui onde o que o peito abrange, e sente,
Na mais ampla expressão acha estreiteza,
Negra idéia do abismo assombra a mente.

Difere acaso da infernal tristeza
Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,
Ser vivo, e não gozar da Natureza?

Minh'alma quer lutar com meu tormento;
Contenda inútil! É por ele o Fado:
Antes de oprimir-me está cansado
Eterna força lhe refaz o alento:

Mais vale que delire o pensamento
Te agora coa Razão debalde armado;
É menos triste, menos duro estado
A Desesperação, que o Sofrimento:

A Desesperação soluça e chora,
A Desesperação mil ais desata,
Parte do mal nas queixas se evapora:

O Sofrimento azeda o que recata;
Prende suspiros, lágrimas devora,
tiraniza, consome, e às vezes mata.

 Aqui, onde arquejando estou curvado
À lei, pesada lei, que me agrilhoa,
De lúgubres ideias se povoa
Meu triste pensamento horrorizado:

Aqui não brama o Noto anuviado,
O Zéfiro macio aqui não voa,
Nem zune insecto alígero, nem soa
Ave de canto alegre, ou agourado;

Expeliu-me de si a humanidade,
Tu, astro benfeitor da redondeza,
Não despendes comigo a claridade:

Só me cercam fantasmas da tristeza:
Que silêncio! Que horror! Que escuridade!
Parece muda, ou morta a Natureza.

 

Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som.
 
 
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