Epigramas

 

I

Lavrou chibante receita
Um doutor com todo o esmero;
Era para certa moça,
Que ficou sã como um pêro.
«Tão cedo! É. milagre!»
A mãe (que de gosto chora)
«Minha mãe, não é milagre,
Deitei o remédio fora.»

II

Pôs-se médico eminente
Em voz alta a receitar:
«Récipe...» (diz). De repente
Grita da cama o doente:
«Basta, que mais é matar».

III

Para curar febres podres
Um doutor se foi chamar,
Que, feitas as cerimónias,
Começou a receitar.

A cada penada sua
O enfermo arrancava um ai.
«Não se assuste (diz Galeno)
Que inda desta se não vai.»
«Ah! senhor! (torna o coitado
Como quem seu fado espreita)
Da moléstia não me assusto,
Assusto-me da receita.»

IV     

«Morte! (clamava um doente)
Este mísero socorre.»
Surge a Parca, de repente,
E diz de longe: «Recorre
Ao teu médico assistente.»

V     

Um velho caiu na cama:
Tinha um filho Esculapino,
Que para adivinhações
Campava de ter bom tino.
O pulso paterno apalpa,
E receitar depois vai:
Diz-lhe o velho, suspirando:
«Repara que sou teu pai!»

VI

Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor, que passava.
Mal que chega o bom Galeno
Diz o outro com ar jucundo:
«Unamo-nos, meu doutor,
E dêmos cabo do mundo!»


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

Comments