Dai-me Rosas e Lírios

 

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas


Em me dardes muitas flores,

Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço


Que me deis flores...

Sejam essas as flores que me deis...


Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,

Sob o céu cheio de sol!

A minha agonia da realidade lúcida!

Desejo de chorar absolutamente como uma criança


Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.


0 homem que apara o lápis à janela do escritório

Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.

Haver lápis a aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!

É tão fantástico que estas cousas sejam reais!

Olho para ele até esquecer o sol e o céu.

E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.


A flor caída no chão.

A flor murcha (rosa branca amarelecendo)

Caída no chão...

Qual é o sentido da vida?



Autor: Bocage ‘Álvaro Campos’ (1888-1935)

Editado poe: nicoladavid

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