Cartas de Olinda e Alzira - Epistola III

                                        

OLINDA A ALZIRA

Quanto gratas me são as tuas letras,
Querida Alzira! Ao coração me fallas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtude tal, que apenas lidas
D′ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, prezada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a sua origem.

Se bem me lembro, outr′ora de ti mesma
Ouvi eguaes queixumes, não sabendo
Nem eu, nem tu, d′onde elles procediam.
Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa
Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.
Cessaram os teus males, eu os sinto...
A edade é (dizes tu) a causa d′elles;
Ah! Que extranha linguagem! Não concebo
Porque fallas assim; pois traz a edade
Males, nos tenros annos não provados?
Tres lustres conto apenas: tu tres lustros
Antes de te esposar tambem contavas;
Poz o consorcio a teus lamentos termo,
Limitará os meus? Ah! dize, dize
Tu, que desassocego egual soffreste,
O seu motivo, e como o apaziguaste;
Revela á tua amiga este mysterio
D′onde sinto perder o meu repouso.
Eu não exp′rimentava o que exp′rimento:
Os meus sentidos todos alterados
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas:
O coração no peito turbulento
Pula, bate, com ancia extranhamente:
O sangue, pelas veias abrazado
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do pezo da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d′antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D ′outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lisos té′qui, macúla um brando pello,
Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.
Sobresalta-me d′homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos, que expressar me custa;
Amor... E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?
Já tenho lido effeitos de seus damnos;
Mas esses, que o seu jugo supportaram,
Tinham com quem seu pezo repartissem,
Tinham a quem chamavam doce objecto.
Quem a seu mal remedio suggerisse,
Isto era amor; mas eu amor não sinto:
A doce inclinação, que dous amantes
Um ao outro consagram, desconheço.
Sim: dos homens a vista lisonjeira
É para mim; nenhum porém me prende;
Não sei se chamma interna me affogueia... 

Amor isto será? Alzira, falla
Falla com candidez á tua amiga;
Ensina-me a curar a funda chaga,
Que internamente lavra por mim toda.
D′estas agitações, que me flagellam,
Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:
Tu tiveste-as tambem, já não te avexam.
Mostra-me por que modo as terminaste.
Talvez do que te digo farás mofa...
Ah! vê que por meus labios a innocencia
Comtigo é quem se exprime; tem dó d′ella,
E se os meus sentimentos são culpaveis,
Dize-m′o, que abafados em meu peito
Serei victima d′elles; se extinguil-os
Os meus esforços todos não poderem,
Comigo hão de morrer, findar comigo.

 

Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid


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