A Prisão

 

Se em verso cantava dantes
O poder da formosura,
Hoje vou chorar em verso
Inconstâncias da ventura.

Vou pintar os dissabores,
Que sofre meu coração,
Desde que lei rigorosa
Me pôs em dura prisão.

A dez de Agosto, esse dia,
Dia fatal para mim,
Teve princípio o meu pranto,
O meu sossego deu fim.

Do funesto Limoeiro
Já toco os tristes degraus,
Por onde sobem e descem
Igualmente os bons e os maus.

Correm-se das rijas portas
Os ferrolhos estridentes:
Feroz condutor me enterra
No sepulcro dos viventes.

Para a casa dos assentos
Caminho com pés forçados;
Ali meu nome se ajunta
A mil nomes desgraçados.
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Eis que sou examinado
Da cabeça até aos pés,
E vinte dedos me apalpam,
Quando de mais eram dez.

Tiram-me chapéu, gravata,
Fivelas, e desta sorte,
Por um guarda sou levado
Ao domicílio da morte.
………………………………………….

Fecham-me; fico assombrado
Na medonha solidão,
E, sem cama a que me encoste,
Descanso os membros no chão.
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Os amigos inconstantes
Me tinham desamparado;
E nas garras da indigência
Eu gemia atribulado,

Quando Aónio, o caro Aónio,
Da natureza tesoiro,
A triste penúria manda
Eficaz auxílio de oiro.

Enquanto existir Elmano,
Sempre, ó génio singular,
Na sua alma e nos seus versos
Terás honroso lugar.

Passados vinte e dois dias,
Sofrendo mil mágoas juntas,
Enfim, por um dos meus guardas
Fui conduzido a perguntas.

O ministro destinado
Era o respeitável Brito,
Que logo viu no meu rosto
Mais um erro que um delito.

Olhou-me com meigo aspecto,
Com branda, amigável fronte,
E fui logo acareado
Com o meu amável Ponte.

Portei-me como quem tinha
Para a verdade tendência;
Do peso da opinião
Aligeirei a inocência.

Puni pelo caro amigo,
Ferido de interna dor:
Singular sou na amizade,
Como singular no amor.

Posto fim ao acto sério,
O meu guia me conduz
Para segredo mais largo,
De que não tem medo a luz.

Fiquei mais desafogado.
Mas também fiquei mais só,
E de amargura sentia
Soltar-se da vida o nó.

Lembrava-me a curta fresta,
Por onde à presa matula
Ouvia de quando em quando
Conto vil em frase chula.

Lembrava-me a gritaria,
Que faz a corja a quem passa,
Loucamente misturado
O prazer com a desgraça.

Lembrava-me este catando
Piolho, que d'alvo brilha,
Aquele a chuchar gostoso
Cigarro, que ou compra ou pilha.

Um por baldas, que lhe sabe,
Ao outro dando matraca;
Estes cantando folias
Aqueles jogando a faca.

Coisas tais que noutro tempo
Me fariam ansiedade,
Eram então para mim
Estímulos de saudade.

Servindo-me de tormento
A minha imaginação,
Em claro passava as noites,
Passava os dias em vão.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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