À Santíssima Virgem a Senhora da Encarnação

 
 

Acatamento em si e audácia unindo,
Sobre o jus de imortal firmando os voos,
A impávida Razão, celeste eflúvio,
Se eleva, se arrebata.

 

Por entre imensa noite e dia imenso
(Mercê do condutor, da Fé que a anima)
Sobe de céus em céus, alcança ao longe
O grão Princípio dos princípios todos.

 

Além do Firmamento, além do espaço
Que, por lei suma, franqueara o seio
A mundos sem medida, a sóis sem conto,
Imóvel trono assoma:

 

De um lado e doutro lado é todo estrelas;
Vence ao diamante a consistência, o lume;
Absortos cortesãos o incensam, curvos,
Tem por base o dossel, a Eternidade.

 

Luz, de reflexos três, inextinguível,
Luz, que existe de si, luz de que emanam
A Natureza, a Vida, o Fado, a Glória,
Dali reparte aos entes.

 

Altas virtudes, sentimento augusto;
Aos entes, que, na terra extraviados,
Das rebeldes paixões entre o tumulto,
Ao grito do remorso param, tremem.

 

Filho do Nada! Um Deus te vê, te escuta.
Seus olhos imortais do empíreo cume
(Aos teus imensidade, aos dele um ponto)
Atentaram teus dias.

 

Teus dias cor da morte ou cor do Inferno.
D'alma em alma grassando a peste avita,
Hálito de serepente enorme, infesta,
Da primeva inocência a flor crestara.

 

Aos dois (como ele) do Universo origem
Diz o Nume em si mesmo: — «O prazo é vindo;
Cumpra-se quanto em nós disposto havemos.»
Eis o Espírito excelso,

 

Radiosa emanação do Pai, do Filho,
Mística pomba de pureza etérea,
A donzela Idumeia inclina os voos,
Pousa, bafeja e diviniza o puro.

 

Tu, Verbo, sobrevéns; aérea flama
Com tanta rapidez não sulca o pólo!
Eis alteado o grau da humanidade;
Eis fecunda uma virgem,

 

A redenção começa, o Deus é homem.
Da graça, da inocência, ó paz, ó risos,
Do Céu vos deslizais, volveis ao mundo.
Caí, torres de horror, troféus do Averno!

 

Que estrondo!... Que tropel!... Ao negro abismo
Que desesperação revolve o bojo!...
Para aqui, para ali, por entre Fúrias
O sacrílego monstro,

O rábido Satã em vão blasfema.
Lá quer de novo arremeter ao mundo,
Mas vê rapidamente aferrolhado
O tartáreo portão com chave eterna.

Enquanto brama, arqueja; enquanto o ferro
Morde, remorde as mãos, e a boca horrenda
(As espumas veneno, os olhos brasas),
Mulher divina exulta:

 

Celestial penhor, que os anjos cantam,
Que as estrelas, que o Sol, que os Céus adoram,
Virgens submissas, mereceu na Terra
Circunscrever em si do empíreo a glória.

 

Salve, oh, salve, imortal, serena diva,
Do Nume oculto incombustível sarça,
Rosa de Jericó, por Deus disposta
Flor, ante quem se humilham

 

Os cedros, de que o Líbano alardeia!
Ah! No teu grémio puro amima os votos
Aos mortais de que és mãe: seu pranto enxugue,
Seus males abonancem um teu sorriso!


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

 
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