Um serventês que em nada falha

 

Um serventês que em nada falha
E que não me custa uma palha
Campus para dizer com arte
Que irmão ou primo me comparte
Do ovo a ultima migalha,
Mas se depois que minha parte,
Não quero mais a comunalha.

Do meu lugar não me tresmalho.
Por maior que seja o trabalho
Que dão Ademar e Ricardo,
Ergo bem alto o estandarte.
A rixa agora os atrapalha:
Se não houver rei que os aparte,
Amigo a amigo se estraçalha.

Guilherme de Gourdon, bimbalha
Grande sino em vossa muralha,
Eu vos estimo, Deus nos guarde!
Mas que sois frouxo e sois covarde,
De vós assim já se assoalha
Aos viscondes, se não entrardes
Junto com eles na batalha.

O dia todo me esfrangalho
E esgrimo e resisto e retalho.
Movem-me guerra com alarde,
Já minha terra toda arde,
Não há valente nem paspalho
Que contra mim, ou cedo ou tarde,
Não arremeta seu chanfalho.

Debalde, como um espantalho,
Busco barões por todo atalho,
Na vanguarda ou na retaguarda,
Para fundir numa albarda
De bom metal contra a canalha.
Que até os anéis de São Leonardo
São mais rijos do que essa tralha.

Talleyrand não trota nem malha.
Como os demais da sua igualha
Não sabe armar lança nem dardo.
Engorda só, como um Lombardo;
De guardanapo e de toalha
Vai engrossando a pão e lardo:
A boa vida o amortalha.

A Périgord, junto à muralha,
Onde o tumulto mais farfalha,
Virei armado em mey Baiardo,
E se topar algum testardo,
Verá meu gládio como talha:
Que irei servir ao molho pardo
Miolos mexidos com malha.

Barões, Deus vos tenha em resguardo
E vos anime e vos valha,
Para dizerdes a Ricardo
O que o pavão disse à gralha.

Autor: Bertrand de Born (Séc. XII)
Editado por: nicoladavid

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