Eu quero a primavera

 

1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.

2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p’ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d’arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.

3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais –
somente entre golpes mortais.

4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co’o dono morto, os animais.
E na batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.

5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando “Atrás! Atrás!”
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.

6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.

7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem ,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.

8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem –
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.

9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.

10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz .


Autor: Bertrand de Born (Séc. XII)
Editado por: nicoladavid

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