Caçado com boa razão

 

Cresci como filho de gente rica.
Meus pais deram-me uma gravata

e me educaram nos hábitos de ser servido.
Ensinaram-me também a arte de mandar.
Mas quando cresci e olhei em volta
não gostei da gente de minha classe,
nem de mandar nem de ser servido.
E deixei a minha classe,
indo viver com os deserdados.

Deste modo, criaram um traidor.
Ensinaram-lhe as suas artes
e ele passou para o lado dos inimigos.

Sim. Eu revelo segredos.
Estou no meio do povo e relato
como eles o enganam.
Prevejo o que virá, pois estou a par de seus planos.
O latim dos padres venais
traduzo palavra por palavra na linguagem comum.
Assim todos vêem os seus disparates.
Pego nas mãos a balança da justiça
e mostro os falsos pesos. Os espiões me delatam,
revelando que estou ao lado das vítimas
quando se dispõem a atacá-las.
Eles me advertiram e me tomaram
o que tinha ganho com meu trabalho.
E como não melhorei, começaram a caçar-me.
Mas em minha casa só encontraram escritos
que denunciavam seus atentados contra o povo.
Emitiram então contra mim um mandado de prisão,
acusando-me de idéias subversivas,
isto é, da subversão de ter idéias.
Aonde chego sou estigmatizado
pelos proprietários, mas os deserdados

sabem do mandado de prisão e me escondem.
Dizem:
A você eles estão caçando com boas razões.

Autor: Bertolt Brecht (1898-1956)
Editado por: nicoladavid

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