O Samba

 

Descendo dos morros, das sujas favelas,
O samba se espalha
Nas ruas, nas praças coalhadas de gente.
Temperam-se goelas
E as canções de fundo de chapéu de palha
Ecoam num mole compasso dolente.

É a velha tristeza
Da triste pobreza,
Da gente que come farinha e feijão.
Queixar-se é da regra;
E quando se alegra,
Tal como o poeta,
De suas tristezas, faz uma canção.

A música é lenta,
Dolente, plangente, monótona, langue;
E o canto resume
Um triste queixume:
Amor desprezado, perfídias, ciúme,
Ou o sensualismo fervendo do sangue.

Ou, então, o "motivo",
É a míngua do cobre,
O níquel vasqueiro,
Um riso troçando do mal de ser pobre.
Cantigas! Aos males que bom lenitivo:
"Com dinheiro ou sem dinheiro
Eu vivo"...

Os seus instrumentos,
Notai: são bulhentos
Mas duros soturnos, no seu estridor.
Ganzás, reco-recos, zabumbas, tambores
As cuícas plangentes...
São eles - dir-se-ia - também sofredores
Do mal da pobreza, das mágoas de amor.

O samba é a tristeza
Cantada e ritmada,
Que dança, que ginga, que mexe os quadris.
Tristeza da raça
Que troça a miséria, que ri da desgraça,
Que canta na rua, que ginga na praça
E esquece, cantando, de ser infeliz.

Bendiga-se o samba,
O samba que o "bamba" compôs no Salgueiro,
Desceu e no Nice* trocou por dinheiro.
Escrito na pauta, ganhou harmonia;
Em disco gravado,
Agora tem nome, tem nova autoria,
É o samba "Me matas" de autor consagrado...
Que o rádio irradia, que o povo assobia.

E o samba domina,
Invade a cidade, a montanha e a praia,
No Estácio, na Lapa, na zona grã-fina.
O samba - hino e reza - da flor da gandaia,
Assume atitudes de música nobre,
Com luxos de pobre.
Adere ao Flamengo, frequenta o Leblon,
O granfa acompanha
Aos pousos de férias, à ilha, à montanha,
As águas - Cassinos da gente do tom.

Mas como difere do samba cantado
Por gente elegante,
O outro, o nativo, no morro gerado!
Não há quem o cante
Naquela toada dorida, arrastada,
Molhada de pranto,
Num tom de gemido melódico e longo
Que lembra soluços de negro do Congo,
Que lembra macumba, Xangô, Pai-de-santo.

O samba, é ouvi-lo.
Em blocos do Nheco, cordões da Mangueira,
Em bailes suados da boa gafieira,
No estilo do morro, seu único estilo.

Samba na exata,
Quer bustos de crioula, quadris de mulata
É o aroma esquisito de suor e jasmim.
Requer solecismo e a gíria de classe
Que não tem sintaxe,
Não tem parentesco com grego e latim.

Este, sim, é o samba
Que rima com "bamba"

- Alegre tristeza, soturna alegria
Que implora, que chora, mas que arma salceiros
Que rasga a navalha quando se arrelia,
Ventres e pandeiros.

Não chora miséria! Chorar? Que esperança!
No canto e na dança,
Melhor ele diz
O quanto padece quem ama e não come,
Mas não se consome!
E até nem se lembra de ser infeliz.

Autor: Bastos Tigre (1882 - 1957)
Editado por: nicoladavid

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