Observo o céu, lá fora

 
 

Da minha janela,
Observo o céu, lá fora.
 
Este parece que se desfaz,
num ribombar constante
De trovões e relâmpagos,
De blasfémias cortantes.
 
Sinto a sua ira,
Mal contida,
De desapontamento constante.
 
Através da janela
Do meu quarto,
Observo
A chuva que cai lá fora,
Insistentemente.
 
Ela cai,
Como num choro.
 
No principio, devagar...
Cai a lágrima de mansinho.
Depois, como num turbilhão
O descontrolo
Dum pranto aberto.
Chovendo em dilúvios constantes.
Para terminar, devagarinho,
Pausadamente,
Ao ritmo do coração,
Em soluços abafados,
Mal contidos.
 
Mas da minha janela,
A chuva cai em prantos convulsivos.
Escorrendo pela rua,
E inundando a terra.
 
E eu, á janela,
Observo...
De olhos marejados d'água,
Liberto lágrimas
De mansinho.
 
E elas,
Escorregam pela face
Devagarinho.
 
Chove.
Chove dos céus
Água sem fim.
É como as lágrimas
Que liberto dentro de mim.


Autor: Augusto Gil (1873-1929)

Editado por: nicoladavid

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