Versos a um cão

 

Que força pôde, adstrita a embriões informes,

Tua garganta estúpida arrancar

Do segredo da célula ovular

Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,

Suficientíssima é para provar

A incógnita alma, avoenga e elementar

Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!

Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a

A escala dos latidos ancestrais...

E irá assim, pelos séculos, adiante,

Latindo a esquisitíssima prosódia

Da angústia hereditária dos teus pais!


Autor: Augusto dos Anjos (1884 – 1914)

Editado por: nicoladavid

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