O Deus-Verme

 

Fator universal do transformismo,

Filho da teleológica matéria,

Na superabundância ou na miséria,

Verme — é o seu nome obscuro de batismo.

 

Jamais emprega o acérrimo exorcismo

Em sua diária ocupação funérea,

E vive em contubérnio com a bactéria,

Livre das roupas do antropomorfismo.

 

Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrópicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão...

 

Ah! Para ele é que a carne podre fica,

E no inventário da matéria rica

Cabe aos seus filhos a maior porção!


Autor: Augusto dos Anjos (1884 – 1914)

Editado por: nicoladavid

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