Asa de Corvo

 

Asa de corvos carniceiros, asa

De mau agouro que, nos doze meses,

Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes

O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,

É meu destino viver junto a essa asa,

Como a cinza que vive junto à brasa,

Como os Goncourts, como os irmãos siameses!


É com essa asa que eu faço este soneto

E a indústria humana faz o pano preto

Que as famílias de luto martiriza...


É ainda com essa asa extraordinária

Que a Morte — a costureira funerária —

Cose para o homem a última camisa!


Autor: Augusto dos Anjos (1884 – 1914)

Editado por: nicoladavid
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