Cantigas de Circunstância II

 

Mal um homem estende as mãos
outras se estendem para ele.
Os homens são logo irmãos
se a mesma fúria os impele.

 

O mundo tanto é um caos,
como é uma harmonia.
Todos os rumos são maus
se uma ideia não nos guia.

 

Ser fiel a uma ideia
custa mais do que parece.
Quem o é logo se enleia
nas próprias redes que tece.

 

Enquanto no mundo houver
entre os homens divisão,
há-de-se a honra vender
Há-de-se honrar o ladrão.

 

Quem pudesse nada amar
que vida seria a sua?
Não bastas um erro apontar,
se ante o erro se recua.

 

Não tenha medo de errar
quem aspira a mais certeza.
Liberdade que se preza
todos busca libertar.

 

O futuro não se impede.
Travá-lo pois de que serve?
Seja ele a água e a sede,
e sede a água conserve.

 

O que a tudo resiste
é homem de pouco siso.
A liberdade consiste
em saber o que é preciso.

 

Toda a lei é má ou boa.
Ao sabor de quem convém
Quem tem riqueza roubou-a
mesmo que não saiba a quem.

Autor: Armindo Rodrigues (1904-1993)
Editado por: nicoladavid

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