"De Orpheu – 2.º Volume"


                 1

Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
E como alguém que se olhe
Com olhos de alma p’ra alma.

 

Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
E como alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.

 

Não vê... não ouve... não fala.,.
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente, de olhá-la.

 

Caminho! Noite cerrada!
Sou a Paisagem de ausente,
Toda em mim transfigurada.

 

2

 

Oiro velho no poente...
Pesadas tapeçarias,
Num ar distante e dormente,
Por longas salas sombrias...


Um velho leque perdido
Por mãos pálidas e frias...
E um silêncio adormecido
Em sedas e pedrarias...

 

Leões de mármore, olhando,
Impassíveis, vagamente,
E sempre a fonte chorando...

 

Uma alameda deserta...
Uma princesa doente
Na janela sempre aberta...



Autor: Armando Côrtes Rodrigues (1891-1971)
Editado por: nicoladavid



                


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