Uma manhã no golfo de Corinto

 

Uma manhã no golfo de Corinto,
comemos grandes cachos moscatel.
O mar, de leite e azul, tinha veios de absinto;
e o teu corpo, ao sol, como um sabor a mel.

 

Enlaçámo-nos nus entre loureiros-rosas
róseos e brancos, alternando, até à praia.
- Não tornam mais a vir as horas dolorosas
sumiram-se ao car sútil da tua saia.

 

E boca contra boca, a sorver bagos de âmbar,
bem brunidos de sol, e sempre a arder em sede,
assim ficámos nós até que veio a tarde
deitar-nos devagar sua mistica rede.

 

Mostraste-me a sorrir, no golfo, uma medusa
«Queria viver assim, disseste, a vida toda»
Tinhamos vinho com resina numa infusa,
e bebemo-lo os dois para acabar a boda.

 

Fomos nadar depois a água era tão densa,
que nos trazia, mornamente, ao colo,
num puro flutuar, beatitude imensa,
entre reflexos, a arrolar, de rolo em rolo…

 

A noite veio enfim estendidos na areia,
pusemo-nos então a entristecer calados.
Como dois mármores um tritão e uma sereia
que o golfo adormecia em soluços velados.


Autor: António Patrício (1878-1930)

Editado por: nicoladavid

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