"Ode à Espuma"

Espuma!

Murmúrio de deuses
perdidos na bruma.
Jardim em adeuses ...
Sorriso que embala,
canção que se exala
do sonho que cala.
A flor, flor errante,
sem caule, bailante,

a flor dum instante ...
A flor que sonha alto,
a flor que eu exalto,

o rir do mar alto.

A erva do mar,

o musgo do mar,
aroma a rezar ...
Brancura dormente,
sorrindo, fremindo,
florindo, fluindo
imemorialmente.

Sob o sol de Agosto,
alvíssimo mosto,
fervendo com gosto
no lagar do mar.

A flor que é mais pura,
o lírio a rezar

abrindo na amura

da onda a gear ...

O segredo orante,

O ai caminhante,

o eco sonhante ...
A flor sensitiva

mais que a sensitiva,
a flor rediviva.
Criança da bruma,
espuma, a espuma!. ..
A flor em adágio,
divino presságio,

o rir em naufrágio ...
Vozinha em penumbra
que meiga ressumbra
no glauco marulho:
saudade em arrulho.

A vida e a morte
num beijo, de sorte

que é vida ou é morte?

A alma da vaga,

o riso que alaga,

os dentes da vaga ...
Cabelo que voa,
que longe enevoa,
que reza e ecoa...
que o vento desfia,
ou acaricia

em ave-mana ...
Sorrir feito lírio,
sorrir em delírio

o lírio mais lírio ...
Suspiro nevado,
soluço que beija
e ri consolado ...
A nívea carola

que ferve, que rola,
e em rir se estiola.
A renda amarela

do mar em procela:
das marés do Outono
mugindo sem sono,
rasgando-a no ar.
Pobre renda antiga
que uma rapanga,

que ficou mendiga

de tanto esperar,

atirou à morte,

louca de má sorte,
atirou ao mar.

 

 

Autor: António Patrício (1878-1930)

Editado por: nicoladavid

 

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