Saudade de Petrópolis

 
 

É quando aqui, como em região maldita,

É fogo este ar, e o sol candente frágua,

Que a saudade de vós, tensa e infinita,

Cimo dos Órgãos, me enche os olhos d’água.

 

Choro por vós, serras de anil, onde a alma

Livre expandi e o coração de poeta,

Afastando-o daqui da intensa calma

E poeira vil desta cidade infecta.

 

Choro por vós, árvores seculares,

Que às trepadeiras suspendendo o véu,

Ides, os braços a alongar aos ares,

Meneando as grimpas, dialogar com o céu.

 

Plúmbeos penhascos sobrecarregados

De limo e avencas, barrocais floridos,

Estradas mortas, brenhas e valados,

Do azul na extrema capoeirões perdidos,

 

Choro por vós! Vendo-os, eu dizia:

— “Da visão vossa vinde encher-me o olhar!

Que alevantados surtos de poesia

Eu aqui sinto com vos contemplar!”

 

Choro... Não por teu luxo e pompas fátuas,

Bela cidade, cortesã da serra,

Não por teus parques e jardins e estátuas,

Pelos palácios que teu seio encerra;

 

Choro por vós, céus grandes e profundos,

Onde cem noites me travei, perdido

A olhar na marcha dos acesos mundos,

Arca por arca com o Desconhecido.

 

Choro por vós, nevoeiros das montanhas,

Neblina esparsa na manhã que ri,

Frígidas águas em que ao sol te banhas,

Grotão ruidoso do Itamarati!

 

Por vós... Não por teus bailes suntuosos,

Pelo esplendor das opulentas salas,

Cidade cheia no verão de gozos,

De poeira e luzes, de miséria e galas.

 

Por vós, luares de mármore, serenos,

Noites sem-par de penetrante frio,

Que Junho assopra e assopra Julho, a plenos

Pulmões, a face a arrepiado rio;

 

Por vós, camélias brancas, e encarnadas,

Dálias, por vós, roxas ou de outra cor,

Azáleas mil e orquídeas variegadas,

Plantas a rir, perpetuamente em flor;

 

Céu azul! claro sol! virente serra!

Por vós, que amei e em minha dor memoro;

Ó pedaço melhor de minha Terra!

Por vós, por vós... por nada mais eu choro!

 

Autor: António Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Editado por: nicoladavid

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