O Muro

 

É um velho paredão, todo gretado,

Roto e negro, a que o tempo uma oferenda

Deixou num cacto em flor ensanguentado

E num pouco de musgo em cada fenda.

 

Serve há muito de encerro a uma vivenda;

Protegê-la e guardá-la é seu cuidado;

Talvez consigo esta missão compreenda,

Sempre em seu posto, firme e alevantado.

 

Horas mortas, a lua o véu desata,

E em cheio brilha; a solidão se estrela

Toda de um vago cintilar de prata;

 

E o velho muro, alta a parede nua,

Olha em redor, espreita a sombra, e vela,

Entre os beijos e lágrimas da lua.

Autor: António Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Editado por: nicoladavid

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