O caminho do morro

 

Guiava à casa do morro, em voltas, o caminho,

até lhe ir esbarrar com as orlas do terreiro;

dava-lhe o doce ingá, rachado ao sol, o cheiro.

e um rumor de maré o cafezal vizinho.

Quanta vez o subi, buscando a um guaxe o ninho,

ou, saltando, o desci com o regato ligeiro,

para voar num balanço, embaixo, o dia inteiro,

e ver girar, zonzando, as asas de um moinho!

De setembro até março, uma colcha de flores

tapetava-o. Reluz-lhe em poças de água o céu;

das folhas sobre o saibro os orvalhos escorrem.

Mas morreram na casa, em cima, os moradores,

morreu, caindo, a casa, o moinho morreu,

o caminho morreu... Até os caminhos morrem!

 

Autor: António Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Editado por: nicoladavid

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