Choro de vagas

 

Não é de águas apenas e de ventos,

no rude som, formada a voz do oceano:

em seu clamor ouço um clamor humano;

em seu lamento, todos os lamentos.

 

São de náufragos mil estes acentos,

estes gemidos, este aiar insano.

Agarrados a um mastro ou tábua ou pano,

vejo-os varridos de tufões violentos.

 

Vejo-os, na escuridão da noite, aflitos,

bracejando ou já mortos e de bruços,

largados das marés, em ermas plagas.

 

O! que são deles estes surdos gritos!

Este rumor de preces e soluços

é o choro de saudade destas vagas!

 

Autor: António Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Editado por: nicoladavid

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