Aspiração

 

Ser palmeira! existir num píncaro azulado,

Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;

Dar ao sopro do mar o seio perfumado,

Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;

 

Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores

Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,

E no azul dialogar com o espírito das flores,

Que invisível ascende e vai falar ao sol;

 

Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,

Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente

Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa,

Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;

 

E juntando a essa voz o glorioso murmúrio

De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,

Ir com ela através do horizonte purpúreo

E penetrar nos céus;

 

Ser palmeira, depois de homem ter sido! est’alma

Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,

E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,

E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;

 

E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques                                                                            [treme,

e estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,

Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,

E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só

 

Que bom dizer então bem alto ao firmamento

O que outrora jamais - homem - dizer não pude,

Da menor sensação ao máximo tormento

Quanto passa através minha existência rude!

 

E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,

Quando aos arrancos vem bufando o temporal,

- Poeta - bramir então à noturna bafagem

Meu canto triunfal!

 

E isto que aqui não digo então dizer: - que te amo,

Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,

Como entendes a voz do pássaro no ramo

E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;

 

E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,

Ou no verme do chão ou na flor que sorri,

Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma                                                                             [conserves,

Para que eternamente eu me lembre de ti!

Autor: António Mariano Alberto de Oliveira (1857 – 1937)
Editado por: nicoladavid

Comments