Nocturno de Natal


Frio e treva lá fora. 
Aqui, no coração que a vida cansa, 
Uma criança chora. 
E dir-se-ia que nasceu agora. 
-Quem é, que tem, esta criança? 

Sei o seu nome, o seu desgosto, 
Uma só vez em cada ano. 
E, cada vez, lhe enxugo o rosto; 
E, com mão trémula, o encosto 
Ao meu, já húmido de lágrimas. 

Mas, ao sentir, como uma prece, 
O meu chorar de arrependido, 
Ela sorri, logo adormece. 
Depois, a vida segue... esquece... 
-Cá dentro, as trevas e o frio! 

Autor: António Manuel Couto Viana (1923-2010)
Editado por: nicoladavid


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