Natal Hoje


Do ventre de amargura e solidão 
Nasce, esta noite, uma criança. 
Chama-lhe esperança 
O coração. 

Quem restará para adorá-la de joelhos? 
Emigram os pastores que sabem ler no céu. 
Coroados no exílio, onde vão os três velhos? 
Entregar oiro e o mais ao banqueiro judeu. 

A estrela anunciadora 
Lança, em vão, o seu místico sinal. 
Confundem-na, talvez, no progresso da hora, 
Com um satélite artificial. 

Puro coral dos anjos, destruído 
Pela bárbara estridência da boîte
Não chega a nenhum ouvido 
Como um hino de amor e um toque a rebate. 

E o desejo mais alto - Paz na terra!- 
Tomba como uma flor emurchecida 
Na eterna guerra 
Em que se esvai a vida. 

Do ventre de amargura e solidão 
Nasce, esta noite, uma criança. 
O coração chama-lhe esperança. 
Mas haverá quem tenha coração? 

Autor: António Manuel Couto Viana (1923-2010)
Editado por: nicoladavid


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