Romantismo

 

Quando ergue o transparente da janela,
Ou que o seu quarto se inundou de luz,
Eu amo vê-la, sedutora e bela,
Longos cabelos sobre os ombros nus.

Oh como é bela! e como a fico a olhar,
Dos seus cabelos desatando a fita!...
Lembram-me as virgens que do austero Ermita
Vinham as noites de orações tentar. 

Oh como é bela! - Tem na luz do olhar
Quais violetas quando as fecha o sono,
Não sei que doce e lânguido abandono,
Não sei que vago que nos faz cismar!...

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seus gestos vários,
Naquele quarto, aquele ninho cheio
Da doce voz dos joviais canários!... 

Como eu quisera ser, nos sonhos dela,
Um rei das lendas, o fatal D. Juan,
pirata mouro, em galeões à vela
Como minaretes sob o céu do Iran!... 

Como eu quisera - e que vontade intensa!-
Só pelo brilho dessa longa trança,
Ser cavaleiro de invencível lança,
Ou rei normando duma ilha imensa!...

Como eu quisera, no seu pensamento,
Ser o rei bardo no rochedo duro,
E ambos, fugindo, recortar o vento,
Sobre a garupa dum cavalo escuro!...

Se me morresse, que comprido choro!
Como vergara sob a cruz de Malta!
Como eu deitara a minha trança d’Ouro,
Por causa  dela, duma torre alta!... 

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

E assim por ela fico preso, enquanto
O sol se esconde no ocidente triste...
Um cravo murcha, numa jarra, a um canto,
- E as aves voam, debicando o alpiste. 

 

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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