"Palácios Antigos"

Bons castelos leais, nas rochas construídos
Às contorções do vento, à chuva enegrecidos,

Que vamos admirar, na angústia dos poentes...
Grandes salas feudais com telas, de parentes,

O que fazeis de pé, como entre os nevoeiros,

Os antigos heróis e as sombras dos guerreiros?

 

Uma grande tristeza, enorme, vos habita!...

No entanto, a alma antiga ainda em vós palpita,
Evocando a emoção das crónicas guerreiras;

E, mau grado o destroço, a erva, as trepadeiras
¾ Como um desejo bom nas almas devastadas ¾
Cresce, ao vento, uma flor no meio das sacadas.

 

A parasita hera avassalou os muros!

 

Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros,
Tudo dorme na paz das causas silenciosas...
E nos velhos jardins, onde não há rosas,

¾ Só resistindo ainda aos séculos injustos ¾
Uma Vénus de pedra espera, entre os arbustos.

 

Paira em tudo o silêncio e o lúgubre abandono
Das causas que já estão dormindo o grande sono,

Evocando ainda em nós os velhos cavaleiros...

E, às lufadas do vento, os grandes reposteiros,

Entre as nossas visões das épocas sublimes,

Agitam-se, ao luar, sanguentos como crimes.

 

Mas no entanto, o poeta entende aquelas dores,
E as mudas solidões, os largos corredores,
As boas castelãs, as góticas janelas,

 

Abertas toda a noite, a olhar para as estrelas...
Só ele sabe os ais e os gemidos das portas
¾ E inveja, às vezes, ser o pó das causas mortas!  

 

Autor: António Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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