Noites de Chuva

 

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outono
já sem rosas
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noites glaciais e pluviosas!...


Nessas noites sem luz, que
visionários
Temos quimeras místicas, celestes,
E cismamos nos pobres solitários
Que tiritam debaixo dos ciprestes!


Que evocamos os líricos passados,
As quimeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados
E os mortos corações sob as raízes!...


Nessas noites, meu bem, em que desfeito
cai o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas;


Nessas noites, eléctricas, nervosas,
Todas cheias de aromas outonais,
Que a tristeza tem formas monstruosas,
Como, num sonho, os pórticos claustrais;


Noites só em que o sábio acha prazeres,
Tão ignorados dos cruéis profanos;
E em que as nervosas, místicas, mulheres,
Desfalecem chorando, nos pianos;


Nessas noites, meu bem! é que os poetas
Têm às vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheiam suas obras predilectas...
evocam rostos... e visões distantes!

 

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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