Idílio d'Aldeia

 

Não sei que há que me impele 
Para o teu escuro olhar!... 
É mais branca a tua pele, 
Do que o linho de fiar! 

É tua boca um botão, 
E o teu riso a lua nova; - 
Quem me dera ter na cova 
Os ais do teu coração! 

Mal podes saber o gosto 
Que tive da vez primeira 
Que te avistei, ao sol-posto, 
Debaixo d'esta amoreira! 

Desde esse dia, andorinha! 
Desde essa tarde infeliz, 
Fiquei preso da covinha 
Que fazes quando te ris! 

Não sei que há que me impele 
Para o teu escuro olhar!... 
É mais branca a tua pele 
Do que o linho de fiar! 

A minha alma não descansa; - 
Morra o sol, ou surja a aurora, 
Só tu me lembras criança 
De cabelos cor d'amora! 

A tua doce ignorância 
Tão cheia de singelezas... 
Faz todas as almas presas 
Como as perguntas da infância! 

Tu és como um pomo d’Ouro, 
E o vivo sol que me alegras; 
- Amo mais teu rir sonoro 
Do que a voz das toutinegras!... 

Quando eu for a enterrar, 
N'algum dia, ao pôr do Sol, 
Quero levar por lençol 
Só a luz do teu olhar! 

.......................................... 

- Mas tu só vives cantando! - 
E ao vir da fonte com água, 
Mais sentes que estou penando, 
Mais te ris da minha magoa! 

Ah! Nunca eu tivesse o gosto 
Que tive da vez primeira 
Que te avistei, ao sol-posto, 
Debaixo d'esta amoreira! 

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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