História de Jesus (extracto) – As Mães

Ó suaves mulheres, que ides cantando 
através das searas e das vinhas, 
vinde ouvir uma história, em verso brando, 
que hei-de ensinar a ler às andorinhas.

É uma história florida como as rosas! 
Quero contá-la aos vossos querubins, 
pelo luar, às horas religiosas, 
quando os cravos concebem e os jasmins.

Quero falar dum ente extraordinário. 
Trágico. Meigo, místico, suave; 
dum leão que morreu sobre um Calvário 
e que deixou um testamento de ave.

Vinde escutar-lhe a história em Galileia. 
Seu suor, sua morte e seu lençol, 
e quando electrizava a vil Judeia 
com seus olhos brilhantes como o Sol.

Desoladas mulheres, que ides chorando 
os maridos que vão para os degredos, 
por alta lua, os filhos embalando
desejando para eles outros enredos. 

Vinde buscar a cura a vossos males, 
na narração das lágrimas, das dores 
do que andava nos rios e nos vales 
com os simples, os chãos, os pescadores!

Vinde ouvir como andava largos dias 
nos lagos e baías prazenteiras 
e electrizava as almas das judias 
sob os seus véus, debaixo das palmeiras.

Vinde escutar as lástimas estranhas 
das filhas de Sião de longas tranças; 
como ele amava os lagos, as montanhas, 
as pombas, os doentes, as crianças!

Vinde escutar seus prantos nos abrolhos, 
nas montanhas seu verbo às multidões. 
E, a expulsar dos demónios as legiões, 
a forte luz terrível de seus olhos.

Ó suaves mulheres, que estais cantando 
ao pôr-do-sol, à porta, às criancinhas, 
vinde ouvir uma história, em verso brando. 
que hei-de ensinar a ler às andorinhas.


Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

 

 

Comments