A Ultima Serenada do Diabo

 

No tempo em que ele, nas lendas, 
Era amante e cortezão, 
Jogava, e tinha contendas, 
Cantava assim em Milão: 

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Ó flores meigas, ó Belas! 
Para prender os toucados, 
Eu dar-vos-ia as estrelas: 
- Os alfinetes dourados! 

Só pelo amor quebram lanças! - 
A Rainha de Navarra 
Enleou um dia as tranças 
No braço d'esta guitarra! 

Sou um herói perseguido!... 
Mas inda há luz nos meus rastros; 
A lança que me há ferido 
Foi feita do ouro dos astros! 

Mas um dia, ó bem-amadas! 
Eu tornaria às alturas... 
Subindo pelas escadas 
Das vossas tranças escuras! 

O amor que em meu peito cabe 
Não conta diques, ó belas! 
Só minha guitarra o sabe, 
E aquelas velhas estrelas! 

Ó batalhas amorosas! 
- Era d'aventuras cheia! 
Ó brancas noutes saudosas 
Que eu andei pela Judeia! 

Ó flores apetecidas! 
Livros escritos com beijos! 
Ó brancas aves fugidas 
Dos jardins dos meus desejos! 

Não me deixeis no abandono 
Ó tristes olhos leais! 
Como as pombas, no outono, 
Que abandonam os pombais! 

Que fosse eu crucificado 
N'alguma bem alta Cruz!... 
- E vos tivesse a meu lado, 
Como vos teve Jesus!... 

Esses olhos me consomem!... 
Mas, Mulher, da luta ao cabo, 
Se perdeste o antigo Homem... 
- Tu matarás o Diabo! 

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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