A Fome de Camões (poema em quatro cantos) Segundo Canto


 

CANTO SEGUNDO - No Grabato do Hospital

 


 

É alta a noite. A lâmpada vacila,     

como um pranto, na vasta enfermaria.

Um marmóreo suor frio cintila

sobre a fronte do Génio, na agonia.

O Génio vai morrer; sobre a pupila

treme-lhe um pranto á luz bassa e sombria,

mais triste do que o luto d'uma sina,

e um soluço através d'uma ruína.

 

Junto do leito uma mulher estranha,

com grandes olhos tristes e parados,

contempla-lhe o suor frio que o banha,

e abraça-o com seus braços descarnados.

Como um sol que se põe n'uma montanha,

são frios os seus olhos encovados,

hirta, severa, trágica a postura,

como imagem d'antiga sepultura.

 

«Já viste diz-lhe o Génio ó mulher triste!

que me olhas com teus olhos impassíveis,

morrer no mundo alguém? Acaso viste

as lágrimas da morte irremissíveis!

Acaso, ao magro peito já cingiste

uns braços que enfim caem insensíveis,

alguns braços d'irmão que te apertaram,

e que até ás entranhas te gelaram?

 

«Já conheceste as grandes despedidas

as despedidas sepulcrais, eternas?

Já sabes quanto doe irem-se as vidas,

formas, e almas que nos foram ternas?

Sabes o fel das lágrimas vertidas,

ou o sangue das lágrimas internas,

n'um rosto amado, uns olhos, um cabelo,

que a alma sabe que não torna a vê-lo?!»

 

Ai! Sim a Mulher dizcom voz gelada

que pareceu sair d'entre saudades,

calcadas como lírios n'uma estrada,

terríveis como pálidas verdades.

«Eu cruzei já os reinos e as cidades

do luto, e da miséria desolada,

e vi mágoas, e gentes falecer

que ninguém viu, nem tornará a ver!»

 

E continuou a olhá-lo fixamente

com o seu olhar trágico e marmóreo,

e um suspiro vibrou profundamente,

dolorido, no vasto dormitório.

Como através d'um sonho incoerente,

n'este sonho da vida transitório,

O Génio leu, no seu olhar parado,

todo o luto e terror do seu Passado.

 

«Ah! já sei quem tu és,   o Génio clama

na rápida centelha d'um delírio.

Tu és a Musa que apregoa a fama,

a Musa meu amor e meu martírio!

Foste tu que acendeste em mim a chama!

N'essas pálpebras roxas como um lírio,

na palidez, nos lábios desbotados,

vejo a Musa dos génios desgraçados!

 

«Tu és a Musa sim d'esses errantes

e tristes peregrinos do Ideal,

d'esses loucos e estranhos viajantes

que andam á busca d'uma flor fatal,

d'uma flor de tons ricos, cintilantes,

d'uma camélia azul e boreal:

até que morrem n'uma praia nua,

ou nos gelos, a um raio azul da lua!

 

«Foste tu que inspiraste sempre os cantos

que eu dediquei á Glória e á Natureza!

Ah! foste tu que me enxugaste os prantos,

e ao luar me falaste de tristeza.

Desci contigo ao reino dos espantos!

Contigo á tarde fui pela devesa!

contigo á noite fui, pelas florestas,

apanhar   boas noites e giestas!

 

«Contigo eu devassei esses segredos,

das raízes, das Coisas, das Origens,

do germinar dos lírios e arvoredos,

e fiz aos astros soluçar as virgens.

Contigo fui, nas pontas dos rochedos,

debruçar-me do abismo nas vertigens,

e andei errante pelo mundo á toa,

como folha que vai n'uma lagoa!

 

«Mas hoje gela-me o suor na testa

e convulsa-me o corpo um calafrio.

Desejo, sonho, amor, nada me resta!

Nada sacode meu cadáver frio!

Contigo não irei pela floresta!

Não mais irei contigo pelo rio!

por que o sopro vital em mim expira,

como as cordas que estalam d'uma lira!

 

«Não sou a Musa, disse a Sombra, não!

Mas tenho visto os prantos dos amantes,

e a desolada e lívida expressão

dos seus gestos, nos últimos instantes.

As cristalinas lágrimas brilhantes

tenho aparado n'esta magra mão;

cerrado os olhos com meus frios dedos,

e escutado os seus últimos segredos!»

 

E, continuou a olhá-lo fixamente,

com o seu olhar trágico e marmóreo,

e um suspiro vibrou profundamente

dolorido, no vasto dormitório.

Como através d'um sonho incoerente,

n'este sonho da vida transitório,

o Génio leu, no seu olhar parado,

todo o luto e terror do seu Passado.

 

«Ah! já sei quem tu és, o Génio brada

Conheço-o agora em teu olhar funesto.

Leio-o na tua fronte amargurada,

e na expressão sinistra do teu gesto.

Tu és uma saudade aos pés calcada,

o lírio d'um desgosto estranho e mesto,

tu és a prole da Lágrima e da Dor.

És o sinistro e monstruoso Amor!

 

«Mas não és esse Amor doce e sereno,

nascido da Beleza, o Amor antigo,

irmão das Graças, lírico e pequeno

amando o rizo, o campo, e o sol amigo!

És o Amor desolado como um treno,

terrível como o açoute d'um castigo,

e empunhando na dextra ensanguentada

um ramo de ciprestes e uma espada!

 

«Como eu sofri das largas cicatrizes,

que abriste no meu peito, sem piedade!

Como eu cantei meus sonhos infelizes!

Como eu te amei ao sol da mocidade!

Como inda sinto as pontas das raízes

do amor que alimentei, e com saudade

lembram-me as tardes que ia nos caminhos,

pensando em ti, sentindo teus espinhos!

 

«Mas hoje mocidade, vida alento,

tudo se foi, para não mais voltar!

Vai dissipar-se tudo, como ao vento,

do fim da tarde o fumo azul d'um lar.

Já sinto flutuar-me o pensamento

como uma flor aquática n'um mar,

e nas páginas do livro dos meus ais

a Sombra pôr o triste nunca mais

 

«Não sou o negro Amor, irmão da Pena

a Sombra disse e não empunho espada,

nas tenho visto a tenebrosa cena,

da tragédia da Vida malograda.

Tenho visto a blasfémia que condena,

a lágrima que queima ensanguentada,

a lágrima que gela e que não corre,

como um desejo q’estacou, e morre!»

 

E continuou a olhá-lo fixamente

com o seu olhar trágico e marmóreo,

e um suspiro vibrou profundamente

dolorido, no vasto dormitório.

Como através d'um sonho incoerente,

n'este sonho da vida transitório,

o Génio leu, no seu olhar parado,

todo o luto e terror do seu Passado.

 

«Conheço-te afinal, n'um grande brado

o Génio diz. Tu és a velha Glória,

mas a Glória do génio amaldiçoado,

a Glória das lágrimas da História!

És a Glória do génio e do soldado

que expira soluçando e sem memória,

n'um doloroso e lívido arrepio,

como um cadáver que rejeita o rio.

 

«Deves ter visto as penas penetrantes,

como os bicos agudos do espinheiro,

as desveladas noites soluçantes,

mais negras do que o rosto d'um guerreiro,

e as tristes magras mãos febricitantes

que te buscam a ti, n'um derradeiro

esforço d'ansiedade e de desdita,

com a blasfémia e a lágrima maldita!

 

«Ilusão! Ilusão! Sonho que encerra

em si a pobre humanidade inteira,

louros que faz buscar a morte e a guerra

nuvem que foge, á hora derradeira!

Glória! Nome vão, a quem a Terra

busca, e só palpa a lívida caveira,

como pálidas flores das ilusões,

que esmagaram os pés das procissões!

 

«Gloria! Nome vão! sonho e quimera,

iris triunfante de vistosas cores,

verme luzente que vagueia na hera,

sonho d'estio entre luar e flores!

Ó giesta gentil da Primavera,

amendoeira da manhã d'amores,

por que nos gelas do Destino á beira,

como a chuva que molha uma bandeira!?

 

«Gloria! Esfinge eterna que dominas

com teu olhar profético do Incerto,

que nos fazes sonhar verdes colinas;

na poeira da areia do deserto,

Harmonia longínqua, mas que perto,

cremos ouvir, marchando entre ruínas,

e que de repente nos fulmina e estala,

como um conviva que morreu na sala!

 

«Como eu te procurei por vale e monte,

e me rasguei nas lanças dos espinhos!

Como eu vi teus acenos no horizonte

a ensinar-me as veredas e os caminhos!

Como eu te vi um dia n'uma ponte,

n'um zimbório, n'uns campos entre ninhos,

e outra vez, n'uma lua sossegada,

a galopar nas pedras d'uma estrada!

 

«Vi-te ainda outra vez, ao vento frio

d'uma tremenda e lúgubre procela.

Estendias-me a mão, entre o assobio

do nordeste e das ondas, branca e bela.

Bem te vi, eras tu, e foi aquela

santa energia, que hoje já fugiu,

foi esse teu olhar que hoje desmaia,

que exausto e salvo me atirou á praia!

 

«Mas só hoje te vejo claramente!

Só hoje, fundo, n'esses olhos leio!

Tardaste muito em vir, Sombra inclemente!

Já muito tarde o teu auxilio veio!

Desalentado, pálido, doente,

nenhum alento me comove o seio!

Podes levar, ó Sombra! o teu tesouro.

Não vale tanto suor teu verde louro!»

 

«Não sou Amor, nem Musa, nem Glória,

  a Sombra disse   nem talentos faço.

Mais terrível, funesta é minha história!

Mais duro e horrendo o peso do meu braço!

Não colho os louros; sítios onde passo

traçam sulcos de sangue na memória.

Ah! mil vezes terrível é meu nome

tenebroso e profundo!... Eu sou a Fome.»

 

«A Fome!   o Génio clama dando um grito,

como um soluço último estridente.

A Fome me conduz para o infinito!

A Fome é meu final, o meu poente!

Foi isto que ganhou meu braço ardente,

foi isto que ganhou meu estro escrito!

a agonia e o suor n'um mundo ingrato,

desilusões, e a enxerga d'um grabato!

 

«Ó ilusões, ó nuvens peregrinas,

horas da mocidade já fugidas!

ilusões ó princesas perseguidas

galopando em fantásticas colinas,

ó brancas catedrais de pedra erguidas

com as santas, á tarde, purpurinas

vegetações, florestas, ideal

recebei meu adeus no hospital!»

 

«Como tu, tenho visto, disse a Fome

pender muita cabeça venerável,

muito crânio de génio, muito nome,

que eu lancei no abismo do insondável.

Muitos que a gloria cega e que consome

d'uma selvagem sede insaciável,

tenho cingido como a tristes noivos,

e hoje estão nas raízes, e entre os goivos!

 

«Muitos tenho apertado entre meus dedos

que se hão finado n'um febril delírio,

e têm-me dito os últimos segredos,

com suas bocas lívidas de lírio.

Dormem alguns á sombra d'arvoredos;

mas outros para mais mortal martírio,

ninguém lhe importa em seu desprezo fundo

onde estão os seus ossos sobre o mundo!

 

«Gigantes crânios de candente lava

têm repousado no meu magro peito!

Bem lindos corpos onde a morta crava

seus dentes, dormem sob o Céu perfeito!

Mas, quando um génio como tu, no leito

mata ao abandono a geração escrava,

corre um remorso, como um calafrio.

 

«Por isso eu vim colher-te, inda tremente

logo que expires, ó Génio, sem confortos,

a lágrima de mármore imponente,

que se gela nas pálpebras dos mortos.

Por que quero levar como presente

aos príncipes, aos povos absortos,

e aos astros a lágrima marmórea,

que n'um grabato derramou a glória!

 

«Mas, se acaso na terra e sobre os mares

ninguém avaliar este teu pranto,

acima irei das nuvens e dos ares

dos astros, dos planetas, do Espanto:

mais acima das Dores e dos Pesares,

da Justiça sublime ao trono santo,

ás solenes e eternas regiões,

pedir justiça ao pranto de Camões.»

 

Dizendo isto a Sombra descarnada

debruçou-se do Génio sobre o leito.

Camões morria já: hirta e gelada

a Fome lhe cruzou as mãos no peito:

e a lágrima marmórea, regelada,

lágrima que infunde pávido respeito,

então colheu do rosto moribundo,

  como um frio protesto contra o mundo.

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

 
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