A Fome de Camões (poema em quatro cantos) Primeiro Canto

 

                  
Primeiro Canto - Tragédia da Rua

 

 

Quando no mundo o Génio abandonado
expira á fome e ao frio, indignamente,
um lívido remorso ensanguentado

sacode o mundo tenebrosamente.

Como o arrepio d'um terror sagrado,

alguma coisa grita intimamente:

como uma voz terrível que suspira

nas cordas vingativas d'uma Lira.

 

E essa Lira é só feita d'ameaças.

Essa Lira é só feita de vinganças.

Essa Lira só fala de desgraças,

d'antigos crimes, de cruéis lembranças.

Essa Lira espedaça e quebra as taças,

cala os festins, e faz parar as danças,

e essa Lira ai! da trágica inocência

é a Lira terrível da Consciência.

 

E a Lira diz: O que fizeste, ó mundo!

das grandes almas únicas, sagradas,

das grandes frontes d'um sonhar profundo

que eram as frontes as mais bem amadas?

O que fizeste d'esse abismo fundo

de vontades mais rijas do que espadas,

d'esses simples e santos corações

que faziam chorar as multidões?

 

O que fizeste d'essas línguas d’Ouro

que sabiam pregar como os profetas?

Como enxugaste o seu comprido choro?

Como arrancaste as pontiagudas setas?

O que fizeste, ó mundo! do tesouro

que vós homens mortais chamais poetas:

mas cujo nome d'harmonias belas

só o sabem as Cousas e as Estrelas?

 

Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento

esses que adora a Natureza inteira,

esmagaste entre as pedras o talento,

os seus crânios quebraste, na cegueira!

As suas cinzas espalharam ao vento!

Profanaste os seus louros na poeira!

E repousam sem lástimas nem lousas

os que viam as lagrimas das Cousas!...

 

Por isso me ouvirás em toda a parte

como um soluço e um grito vingador,

n'uma alta torre, atrás d'um baluarte,

entre os festins, nas convulsões do amor.

Na paz, ou levantando o estandarte

da guerra, escutarás a minha Dor.

Por que eu, ó mundo! Guarda-o na lembrança,

Eu sou a Lira, e a minha voz Vingança!

 

E o mundo escuta, indefinidamente,

a voz da Lira a protestar terrível.

Ouve-a na sombra, ou pelo sol poente,

se o vento dobra o canavial flexível,

ouve-a nos sonhos, ouve-a intimamente,

n'uma continua musica inflexível,

até que enfim vencido n'esta liça

o mundo clama: Faça-se a Justiça!--

 

Era uma noite lívida e chuvosa,

ermas as ruas, ermas as calçadas.

Nada cortava a solidão brumosa,

nem ais d'amor, nem gritos de facadas.

Das nuvens colossais acasteladas

somente a meia lua silenciosa,

boiava em morto céu ermo d'estrelas,

como um navio que perdeu as velas.

 

Quem é que cruza á chuva e á ventania,

á meia noite, as ruas solitárias?

És tu santa Miséria, que de dia

foges da luz do Sol, o pai dos párias?

Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia,

vais nas noites sem lua, mortuárias,

provocar o Deboche e os estrangeiros

á baça luz dos tristes candeeiros?

 

Ó Destino! Ó Destino! eu sei a historia

de muitas das tragédias soluçantes,

de muito nome que esqueceu a Glória,

de muitos prantos que caíram d'antes!

Sei que riscam teus dedos flamejantes,

como uma sina má, muita memória,

e que nada há maior e mais escuro

do que o brilhante e o bronze do teu muro!

 

Mas não quero contar o drama agora

do Brilhante, do Leque, e do Farrapo,

da meretriz que no bordel descora,

do amor do Charco, do histrião, do sapo;

Nem a farsa de sangue a toda a hora,

do Ouro e do Veludo o rico trapo,

nem a sina imoral sinistra e crua

da historia diabólica da Rua.

 

Um dia eu contarei a estranha lenda

ó Destino! Dos teus encantamentos,

seguirei, passo a passo, a tua senda

ó Miséria! E direi os teus tormentos.

Para que a alma da Ralé aprenda,

contarei os cruéis temperamentos,

Direi o Incesto a amamentar os filhos,

e o Parricida a esvaziar quartilhos.

 

Um dia acenderei a selva escura

das almas que sufocam á nascença,

das noites só riscadas d'amargura,

como um fósforo risca a treva densa.

E com a ponta d'um brilhante duro

marcar-te-ei ó trágica Doença

que vais, limpando as lágrimas internas,

fazer um — toast — á Morte nas tabernas.

Um dia evocarei os teus mistérios,

ó tragedia da Rua e os teus segredos,

mais funestos que os tristes cemitérios,

mais profundos que os bastos arvoredos:

direi sonhos, desejos quási etéreos,

desejos que têm azas nos degredos,

d'uma alma que ama o Azul, o Azul almeja,

como a agulha da torre d'uma igreja.

 

Um dia esfiarei todo o rosário

da Inocência e da Fome aventureira,

do Luxo, do Egoísmo solitário,

do Génio soluçante na trapeira,

da Virtude embrulhada em seu sudário,

pedindo esmola á sua irmã rameira,

e o Crime dando bailes d'aparato,

em quanto o Justo expira no grabato.

 

Descobrirei as contas da Avareza

junto ao esquife d'uma virgem bela,

o Tédio bocejando à lauta mesa,

a Fome da mansarda na janela,

a Inveja ululando contra a preza,

como uiva á lua a lúgubre cadela,

e o Suicídio, nas manhãs geladas,

espedaçando o crânio nas calçadas.

 

Um dia cantarei a ladainha

da Desgraça e da Forma triunfante,

da Espada que tilinta na bainha,

da Mascara que ri e passa avante,

da Fome que ergue as mãos e se definha,

do Leque, da Batina, e do Brilhante

das lágrimas mortais do eterno Entrudo,

das misérias do Cancro e do Veludo.

 

Por que tem muito que cantar o império

e o inferno da Carne e dos desejos,

porque é eterno e lívido o mistério

da Morte. São eternos os almejos.

Por que há lagrimas do berço ao cemitério,

há lagrimas no Amor e até nos beijos,

prantos comuns e de grotescos traços

nas misérias dos reis e dos palhaços.

 

Porque tem muito que cantar as cenas

à Rua! das estranhas odisseias

das tuas festas, procissões serenas,

do negro sangue que te agita as veias.

Por que há remorsos, lagrimas e penas

entre os motins e os frenesins das ceias.

Por que n'esta funesta e eterna farsa.

ai! tanto chora o actor como o comparsa.

 

Por que há bastantes corações vencidos,

altos desejos que não mais voaram,

sinistros ais e íntimos gemidos

lágrimas mudas que se não choraram.

Sim, há soluços que não são ouvidos,

lágrimas mortas que se congelaram,

n'uma miséria, um abandono nobre

como um enterro n'uma rua pobre!

 

Porque ninguém conhece onde termina

o trejeito que ri, soluça, engana,

porque a eterna Máscara domina,

e é uma esfinge cada face humana.

Porque a Morte em nós ceifa uma ruína,

quando nos rouba na aza desumana,

e esta mulher que ri com tanta graça,

é talvez uma lágrima que passa!

 

Mas agora eu só conto o Irrevogável,

mais monstruoso do que um sonho ardente,

conto a historia funesta, inexorável,

do Génio morto á fome, indignamente.

Quero narrar o que é o inarrável!

fazer sentir o que jamais se sente,

fazer chorar o choro masculino

Do Génio contra a noite do Destino!

O Génio é um arcanjo refulgente

que enrista a lança contra a escura Sorte,

tem no seu gesto uma expressão potente,

que diz: eu quero! E empalidece a Morte.

Para o Vulgo porem vil inclemente,

e o Destino esse cego antigo e forte,

é um guerreiro trágico e proscrito,

e a fronte tem como um luar maldito.

 

Este vulto, portanto, que caminha

altas horas, ao frio das nortadas,

é Camões que de fome se definha

nas ruas de Lisboa abandonadas.

É Camões a que a Sorte vil mesquinha

faz em noites de fome torturadas,

ele o velho cantor d'heróis guerreiros!...

vagar errante como os vis rafeiros.

 

Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,

o seu amparo e seu bordão no mundo,

morreu-lhe o humilde companheiro antigo,

no seu peito deixando um vácuo fundo.

Hoje pois triste, velho, sem abrigo,

faminto, abandonado e vagabundo,

tenta esmolar também pelas esquinas.

Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruínas!..

 

Mas não estende o valoroso braço,

que outrora trabalhou entre os guerreiros,

a mão recusa-se a suster o passo

dos transeuntes raros, sobranceiros.

A Fome roí-o, curva-o o cansaço.

Cospem-lhe a neve, a chuva, os aguaceiros.

Ó calçadas fatais! Nas enxurradas

vai muito fel de lágrimas choradas.

 

Ó Capitães! Ó Capitães egoístas!

duras velhas mais duras que o granito!

há caso mais sublime às vossas vistas

que mais vos deva merecer um grito,

mais negro, mais cruel para os artistas,

mais sagrado, dramático, infinito,

que mais abale os nobres peitos francos

que um Génio pobre e de cabelos brancos!?...

 

O Génio continua á ventania

a errar pelas ruas silenciosas,

como um espectro que dissipa o dia,

como as grandes estátuas dolorosas.

Assim a noite vaga, na agonia

dos mártires das noites trabalhosas,

até que o sol jorrou pelas vielas,

e ensanguentou os olhos das janelas.

 

Começam-se a ouvir esses rumores

das capitães egoístas acordadas,

a música dos carros chiadores

que chegam das aldeias retiradas.

Recomeçam as pombas seus amores

sobre as brancas igrejas penduradas,

e nas torres dos astros companheiras,

a palpitar, nas glórias, as bandeiras.

 

Começam-se a ouvir as matutinas

músicas da cidade, e as alegrias

dos galos com as notas cristalinas

dos sinos com estranhas sinfonias.

O sol lava de glórias as colinas

as torres, os beirães, as gelosias,

e como a moça que um amante beija

avermelham-se os vidros d'uma igreja.

 

Dos pássaros retinem os gorjeios

nas árvores, nas pontas dos eirados,

os vis riachos, os lodosos veios,

correm ralhando, ao sol, precipitados,

os cavalos remordem os seus freios,

vão passando aldeões para os mercados,

e atrás dos lentos carros os boieiros

vêm sombrios, graves, e trigueiros.

Somente ao Génio uma tristeza enorme

entenebrece todos os ruídos,

como um sombrio coração que dorme,

que já não tem nem sonhos, nem gemidos!

Só sente uma saudade estranha, informe,

como aroma dos tempos revolvidos,

das grandes selvas, sombras e palmeiras

quando o sol desce as ingremes ladeiras.

 

Os aldeões tisnados dos trabalhos,

recomeçando as horas das fadigas,

recordam-lhes os épicos carvalhos

a sombra, os bois, as sestas tão amigas!

Fazem lembrar-lhe as curvas dos atalhos,

a ermida, a fonte, os fenos, e as cantigas,

que ele escutara, pelas luas claras,

ás louras raparigas nas cearas!

 

Lembram-lhe a India, os templos monstruosos,

com seus deuses terríveis, singulares,

as árvores de frutos venenosos,

as bastas selvas, os gentis palmares!

Lembram-lhe os tigres ruivos, sequiosos,

que vão beber a rios como a mares,

e pelas noites imortais, eternas!

o luar nas figueiras das cisternas

 

E ele quisera achar-se em alto monte,

em cima tendo os astros por juízes,

dizendo adeus ao sol no horizonte,

acabar os seus dias infelizes:

na boa terra Mãe deitar a fronte

e entre as vegetações, entre as raízes,

misturar sua vida e acerbas dores

com as almas das plantas e das flores!

 

Para o velho cantor eram fugidos

ai! Como luz que para sempre expira,

os belos tempos jovens e lúcidos,

as mulheres ideais que o Amor inspira!

Rotos, á chuva, os trágicos vestidos,

posta de parte, empoeirada a lira,

achava-se hoje n'uma rua, ó mundo,

velho, faminto, pobre, e moribundo!

 

Sem ousar mendigar, como um vadio,

vaga nas ruas da Cidade egoísta.

A tarde chega, o belo sol fugiu.

A noite vem, que o coração contrista.

Irrompe a lua sobre a verde crista

d'um monte ao longe, e no lajedo, ao frio,

o Génio cai enfim, hirto e sem fala,

como um cadáver que se deita á vala.

 

N'este momento uma mulher gigante,

que pareceu sair d'um pesadelo,

pálida e triste, qual saudade errante,

deixando ao vento as ondas do cabelo,

tão magra como a Sombra, o seu semblante

toldado d'um desgosto imenso e belo,

chegou-se ao Génio hirto e abandonado,

como a visão d'um sonho torturado.

 

E disse-lhe: Bem perto d'esta rua

dar-te-ão, ó mendigo, uma guarida,

não dormirás á lividez da lua

e terás leito onde acabar a vida.

Se a Sorte t'esmagou, a Sorte crua,

ergue a cabeça pálida e abatida,

e ri contente, ó triste, para essa,

que em breve vai findar a tua peça!

 

A mulher ajudou a levanta-lo.

Cingiu o braço ao Génio moribundo.

A Morte que passava em seu cavalo

deu-lhe um sorriso lívido e profundo.

O teu semblante, ó velho, dá-me abalo,

disse a mulher. Não é vulgar no mundo!

Dizei-me pois que coisas tenebrosas

te hão cavado essas rugas dolorosas!

 

 «Eu fui o Génio disse um malfadado

cantor d'heróis e feitos dos antigos!

Amei tudo que é grande e desejado,

e terrível lutei contra inimigos!

Sentei-me no castelo derrocado,

no deserto solar, cruzei os perigos!

E com saudade enfim d'estas colinas,

quis expirar-lhe, um dia, entre as ruínas!

 «Ninhos fizeram no meu peito amores,

como andorinhas sobre as catedrais!

Conheço o aroma das malditas flores!

Sei os soluços dos compridos ais!

Sobre o deserto pálido das Dores,

ninguém como eu peregrinou jamais!

E pelas noites regeladas, cruas,

chorei com fome, errando, pelas ruas!

 

«Porém que porta negra agora abriste?

Que aspecto é este morto e desolado?

Acaso o inferno depois d'isto existe?

Acaso é pesadelo desmanchado?»

Cala-te! Disse a Sombra magra e triste,

Cala-te, ó Génio imenso, desgraçado!

E com sorriso d'expressão fatal

a Sombra concluiu É o hospital!

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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