A Cidade

 

Em vão busco na velha e hostil Cidade,
Beata amante, de gangrenas cheia,
As dispersas raízes da Verdade,
Como uma flor, num pátio de cadeia.

Quando, alta noite, D. Juan passeia,
Ela põe-lhe em leilão a mocidade...
Tratada com a mística ansiedade,
Com que um sábio cultiva a flor da Ideia.

Mas, contudo, ninguém receia tanto
O áspero Deus e o lenho sacrossanto
Da dorida tragédia do Calvário...

E, ó D. Juan, às luzes das estrelas,
Tu bem sabes se encontras, nas ruelas,
Mais de uma vez, perdido algum rosário!...

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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