A Beata Amante

 

A Cidade é beata – e, às lúcidas estrelas
O Vício, à noute, sai aos becos e às ruelas
Sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros...
E à triste e dúbia luz dos baços candeeiros,
Em bairros imorais, onde se dão facadas
Corre às vezes o sangue e o vinho nas calçadas.

As mulheres são gentis. Umas altas, morenas,
Graves, sentimentais, amigas de novenas,
Ébrias de devoções, relêem as suas Horas.
Outras fortes, viris, os olhos cor d’amoras,
Os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,
Às vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burgueses banais são gordos, chãos, contentes,
Amantes de Cupido, egoístas, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas, e nos lutos.
Bastante sensuais, bastante dissolutos,
Mas humildes cristãos!... e, em místicos momentos,
Tendo, ainda, cruéis saudades dos conventos!

Viciosa ela se apraz num sono vegetal,
Adversa ao Pensamento e contrária ao Ideal.
- Mas, mau grado assim ser viciosa, egoísta, à lua,
Com Nero também, dá concertos na rua.
E, em noites de verão, quando o luar consola,
Põe ao peito a guitarra e a lírica viola.

No entanto a sua vida é quase intermitente.
Chafurda na inacção, feliz, gorda, contente.
E, eclipsando as acções dos seus navegadores,
Abrilhanta a batota e as casas de penhores.
Faz guerra à Vida, à Acção, ao Ideal!... e ao cabo
É talvez a melhor amiga do Diabo!

Autor: Gomes Leal (1848-1921)
Editado por: nicoladavid

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