Rio triste



Longuíssimos braços têm
os olhos que tudo abraçam.
Somente, só olhos vêem
os olhos que por mim passam.

Clandestinamente os lanço,
braços de mar, olhos de água.
Longo ser líquido avanço,
abraço a vida, e alago-a.

Destino do amor triste
que não se ouve nem se vê.
Ama apenas porque existe,
não sabe a quem nem porquê.

Nesta obrigação de estar
que a cada um de nós cabe,
coube-me estar de amar.
E ninguém sabe.


Autor: António Gedeão (1906-1997)
Editado por: nicoladavid


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