Poema do homem-rã


Sou feliz por ter nascido

no tempo dos homens-rãs

que descem ao mar perdido

na doçura das manhãs.

Mergulham, imponderáveis,

por entre as águas tranquilas,

enquanto singram, em filas,

peixinhos de cores amáveis.

Vão e vêm, serpenteiam,

em compassos de ballet.

Seus lentos gestos penteiam

madeixas que ninguém vê.

 

Com barbatanas calçadas

e pulmões a tiracolo,

roçam-se os homens no solo

sob um céu de águas paradas.

 

Sob o luminoso feixe

correm de um lado para outro,

montam no lombo de um peixe

como no dorso de um potro.

 

Onde as sereias de espuma?

Tritões escorrendo babugem?

E os monstros cor de ferrugem

rolando trovões na bruma?

 

Eu sou o homem. O Homem.

Desço ao mar e subo ao céu.

Não há temores que me domem

É tudo meu, tudo meu.

 

Autor: António Gedeão (1906-1997)
Editado por: nicoladavid


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