Poema do Gato


Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge p’ra rua
cheira o passeio
e volta p’ra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa, vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas, e rosna,
rosna deliquescente, abraça-me e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

 

Autor: António Gedeão (1906-1997)
Editado por: nicoladavid


Comments