Poema de ser ou não ser


São ondas ou corpúsculos?

Sim ou não?

São uma ou outra coisa, ou serão ambas?

São "ou" ou serão "e"?

Ou tudo se passa como se?

Percorrem velozmente órbitas certas

as quais existem só quando as percorrem.

Velozmente. Será?

Ou talvez não se movam, o que depende

do estado em que se encontre quem observa.

Assim prosseguem rotineira marcha

na paz podre do tempo.

Oh! O tempo!

Até que, de repente,

por exigências igualmente certas,

num sobressalto histérico,

saltam da certa órbita

e vão fazer o mesmo noutra certa

tão certa como a outra.

E assim prosseguem

na paz podre do tempo.

Eis senão quando,

como pedra num charco ou estrela que deflagra,

irrompem no vazio,

e o vazio perturbado afunda-se e alteia-se

e em esferas sucessivas, pressurosas,

vão alagando o espaço próximo

depois o mais distante,

e seguem sempre, sempre, avante, sempre avante,

em quantas direcções se lhe apresentam.

Sim, ou não?

Estou à janela

e vejo muito ao longe a linha do horizonte.

Ser ou não ser?

Eis a questão.


Autor: António Gedeão (1906-1997)
Editado por: nicoladavid


Comments