"Poema da malta das naus"


Lancei ao mar um madeiro,

espetei-lhe um pau e um lençol.

Com palpite marinheiro

medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,

levou-me ao cabo do mundo,

pelote de vagabundo,

rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,

pasmei na orla das praias,

arreneguei, roguei pragas,

mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,

tive o corpo em chagas vivas,

estalaram-me a gengivas,

apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,

com a direita esganei.

Mil vezes no chão, bati-me,

outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres

ecoou nas sete partidas.

Fundei cidades e vidas,

rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,

alambique de suores.

Estendi na areia e na relva

mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo

a que outros chamaram seu,

mas quem mergulhou no fundo

do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.

Provo-me e sabe-me a sal.

Não se nasce impunemente

nas praias de Portugal.

 

Autor: António Gedeão 
Editado por: nicoladavid



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