Poema da buganvília


Algum dia o poema será a buganvília

pendente deste muro da Calçada da Graça.

Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,

e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

 

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília

e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.

Depois cairá o muro.

E como o tempo passa mesmo contra a vontade,

também há-de acabar a Calçada da Graça

e o resto da cidade.

 

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso

que é o mais leve de tudo que se pode supor,

será esse o momento de o poema ser flor,

mas já não é preciso.

 

 

Autor: António Gedeão (1906-1997)
Editado por: nicoladavid


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