Se a Ismene pedi cabelo

Se a Ismene pedi cabelo,

foi só por também ser louro:

fui rico do teu tesouro,

sem o obter da tua mão.

 

Amo em Gertrúria o teu riso,

amo os teus olhos em Jônia,

preso nas cartas de Aônia

tua escrita e discrição.

 

Um só coração me coube,

e tu és a flor das belas!

Nem mesmo entre os braços delas

te fôra infiel jamais.

 

Por distração tenho às outras

vêzes mil teu nome dado;

e até hoje inda a teu lado

não tive enganos iguais!

 

Meu pensamento amoroso

équal Favônio entre as flores,

que, a mil sussurrando amôres,

elege a rosa entre mil;


Por todo um jardim vagueia,

mas guarda a afeição saüdosa;

passa, e lembra-nos a rosa,

da rosa ingênua e gentil.

 

Quanto mais julgas, ingrata,

perder a tua conquista,

tanto mais se aumenta a lista

dos teus triunfos sem par.

 

De meu coração te queixas

serem sem conto as rainhas!

São escravas, que não tinhas,

que vão teu carro puxar.

 

Dez Análias te abandono,

[ônías duas, seis Temíres,

e após estas quantas vires

de semblante encantador.

 

Arrnânía, sôbre áureas rodas,

por tuas rivais tirada,

sobe, de mirto coroada,

ao Capitólio ele amor!

 

Lá, sôbre as aras do nume,

jura um prêmio aos meus ardores

Quanto amarás teus favores

quem tanto os desdéns te amou!.

 

Depois, sofre que ame sempre

em teu sexo a todos grato

os pedaços de um retrato

gue a natureza quebrou.

 

Autor: António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Editado por: nicoladavid



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