"Festa do Deus Término"


Finda a noite, alvoreça a costumada
festa do deus que nos comparte os campos.


Quer tosca pedra, ó Término, te embleme,
quer tronco informe pela mão de antigos
enterrado no chão, sempre és deidade.


Para ti donos dois, de opostas partes,
coroa e coroa te cingem; bolo e bolo
te vem de cá, de lá; como à porfia,
aí se te engenhou ara campestre.


Lá nos traz a açodada fazendeira
no seu testo quebrado as áscuas vivas
que apurou do borralho. O bom do velho
racha a lenha miúda, ergue-a em pirâmide;
sua a cravar no chão ramos festivos.
Agora em cascas secas ceva o fogo,
tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,
o filhinho abraçado a largo cesto.
Três vezes dali tira a lança ao fogo
punhados de áurea Ceres. Toma os favos,
que a filha pequenina lhe apresenta
pelo meio cortados. Trazem outros
o vinho; tudo aqui se liba às chamas.


Alvitrajada a turba espectadora
religioso silêncio atenta observa.
Com o sangue quente de imolada ovelha
que ufano purpureja o vulto informe
do comum velador, o honrado Término!
e quando, em vez de ovelha, haja leitoa,
não temais que se anoje. O bródio é franco
aos bons vizinhos, corações lavados,
que o celebram com fé, que jubilosos
vão tecendo um louvor a cada prato.
Ouvi, ouvi seu rústico descante;
é do deus do festejo o panegírico:


Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas
bairros, cidades, reinos! cada campo
fora sem ti um campo de batalha.
Manténs, desambicioso, insubornável,
as herdades em paz das Leis à sombra.
Se a terra Thireátide te houvera,
não ceifaria a morte heróis seiscentos
de Argos e Esparta no fatal duelo;
não se lera de Othriades o nome
num vão troféu de mentirosas armas,
que inda à Pátria infeliz custou mais sangue.
Capitolino Júpiter que diga
que invencível te achou, quando ao fundar-se-lhe
a área do templo, ao passo que os mais numes
para dar-lhe lugar retrocediam,
tu só, qual no-lo conta anosa fama,
ousas te resistir, ficar, ter parte
no templo augusto, e adorações com Jove;
e inda lá, por que nada alfim te ensombre,
sobre ti ao céu livre é rota a abóbada.
Nume de tão gentil perseverança,
em qualquer a leveza achará vénia;
contradição em ti suicídio fora.
Mantêm pois sempre, ó sacra sentinela,
mantém pois sempre, ó Término, teu posto.
Despreza os rogos do vizinho avaro;
não lhe concedas do terreno um ponto.
Ceder a humanos quem resiste a Jove?!
Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?
proclama a vozes: "Meus confins são estes;
"de além, tu; de aquém, ele; ambos coíbo.
"e em coibir aos dois aos dois protejo."
Uma estrada une Roma aos Laurentinos,
reino que o Teucro prófugo buscara;
lá, dos marcos o sexto em honra tua
vê que lanosa vítima se imola.
Término, já que aceitas cultos nossos,
ampara-nos; sustenta o nosso Império.
De cada povo o espaço é circunscrito;
são de Roma os confins confins do globo

Autor: António Feliciano de Castilho (1880-1875)
Editado por: nicoladavid




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