"Deucalião e Pirra"



Enfim, renasce o mundo. Vendo o triste,
o bom Deucalião vazia a Terra
e alto silêncio derramado em tudo,
a Pirra diz, chorando:
– Ó doce esposa,
doce irmã e hoje única de tantas
habitantes do Mundo, e que ligada
pelo amor, pelo sangue estás comigo.
e ao presente ainda mais pelo infortúnio,
– do Nascente ao Poente, em toda a Terra.
só habitamos nós; só nós vivemos:
tudo o mais pelas ondas foi tragado,
e cuido que não tens ainda segura
tua existência tu, nem eu a minha.
Estas nuvens que observo ainda me aterram:
Ah, triste! Que farias, se arrancada
ao fado universal, sem mim te visses?


Onde, fria de susto, onde levaras
a planta vacilante, e quem seria
tua consolação na dor, no pranto?
Crê. minha amada, que, se o mar sanhudo
te escondesse nas sôfregas entranhas,
te houvera de seguir o aflito esposo:
sócio te fora em vida e sócio em morte.
Oh! Não ter eu de um pai herdado a indústria?
Renovaria agora a Humanidade.
alma infundindo na formada Terra.
Todo o género humano em nós se inclui.
Isto aos fados apraz, apraz aos deuses.
Ficámos para exemplo de que o Mundo
morada de homens foi.
Disse, e choravam.
Depois, tornando em si, resolvem ambos
recorrer aos oráculos sagrados,
da deusa Témis invocar o auxílio.


Não tardam: vão-se à margem do Cefiso,
ainda revolto, sim, mas já com margens;
e, apenas pelas frontes, pelas vestes
os libados licores desparziram.
para o templo da deusa os passos torcem.
Manchava torpe musgo a frente, os tectos
da estância venerável, e jaziam
sem ministro, sem luz, sem culto as aras.
Como as sacros degraus tocado houvessem,
sobre a mádida terra os dois se prostram
e dão nas pedras ósculo medroso.
Oram depois assim:
– Se justas preces
tornam benignos os irados numes;
se a cólera dos Céus com ais se adoça,
dize-nos, deusa, dize-nos de que arte
podemos restaurar a espécie humana
e socorre, piedosa, o triste mundo.
Movendo-se a deidade, assim lhes fala:
– Do meu templo saí cobrindo as frontes:
soltai as vestiduras que vos cingem
e para trás depois lançai os ossos
da vossa grande mãe.


Tendo ficado
atónitos as dois espaço grande,
Pirra primeiro enfim rompe o silêncio.
Da divindade as leis cumprir não ousa
e, com trémula voz, perdão lhe roga,
porque teme, espalhando os ossos frios,
aos Manes maternais fazer injúria.
Depois disto, repetem, pesam, notam
as palavras do oráculo sombrio,
'té que Deucalião, o venerando
filho de Prometeu, com brandas vozes
serena a cara esposa e diz:
Se acaso
não revolvo ilusões no pensamento,
o oráculo da deusa é justo, é pio:
não nos ordena o mal, não quer um crime.
A grande mãe que ouviste, a mãe de todos,
é a Terra; a meu ver, são dela os ossos
as pedras; e essas diz que atrás lancemos.


Bem que esta inteligência agrade a Pirra,
esperanças com dúvidas se envolvem,
e ambos das ordens santas desconfiam.
Mas que mal faz tentar? Descem do templo:
cobrem a fronte; as túnicas descingem,
e logo para trás as pedras lançam.
Eis, – quem te dera crédito, ó portento,
se anosa tradição não te abonasse? –
eis que as pedras de súbito começam
a despir-se do frio e da rijeza
e, despindo a rijeza, a transformar-se.
Crescendo vão: mais branda natureza
lhes entra; e, se perfeito o vulto humano
logo ali se não vê, se vê contudo
em grosseiros sinais a semelhança,
quais; mármores apenas desbastados,
estátuas em começo, informes, rudes.
Partes que eram terrenas e sucosas
nas carnes e no sangue se convertem;
o que tem solidez e o que não dobra
muda-se em ossos, e o que dantes nelas
veia se nomeou conserva o nome.
Num breve espaço, enfim – mercê dos deuses! –,
as que arroja o varão varões se tornam
e as que solta a mulher mulheres ficam.


Por isto. somos fortes, somos duros,
aptos a empresas, próprios a trabalhos;
e em nosso esforço, na constância nossa,
claramente se vê que origem temos.


Autor: António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Editado por: nicoladavid



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