A Noite do Cemitério

 

Un cemetière aux champs !
Quel tableau | quel trèsor !
(LERGOUVÊ. La Mélancolie)

Neste lugar solitário

Que faz mais saudosa a noite,

Quero que ao mundo fugido

O meu coração se acoite.

 

Enquanto o silêncio umbroso

Envolve o meu hemisfério,

Venho sentar-me sozinho

Da morte no ermo império.

 

…………………………..

 

A noite reina; já tudo

Dorme na próxima aldeia;

A imensidade do espaço

Se aclara co..a lua cheia.

 

……………………………

 

Já na terra se descrevem

Os vastos, fendidos muros;

Já pelo chão se retractam

Longos ciprestes escuros.

 

Enquanto aos ciprestes esguios troncos

Altos espectros se abraçam,

Ou com mil formas terríveis

Ante mim calados passam,

 

Enquanto larvas aéreas

Ao luar sentar-se vão,

Além, de escalvados crânios

Sobre terrível montão;

 

Nestas ervas recostado,

Neste deserto profundo,

Conversei c..os finados,

Filhos outrora do Mundo.

 

Aqui onde há pouco a terra

Parece que foi volvida,

Que humano dorme? Que humano

Saiu há pouco da vida?

 

Em nome dos céus responde;

Abre a terra; a pouco e pouco

Se levanta; a voz desprende

Do peito gelado e rouco.

 

Quem és? Não temo; declara:

Avança, tudo aqui dorme.

Olha em torno tudo é noite;

Avança fantasma enorme.

 

Vem-te assentar ao meu lado,

Aumenta-me o meu terror;

De tuas compridas roupas

Que importa o medonho alvor?

 

Nem teu olhar agoireiro?

Nem teus vagarosos pés?

Nem tuas mãos descarnadas?

Nem tua palidez?

 

Mas que som se escuta ao longe!

Os galos cantam na aldeia,

Os galos? Vai pois a noite

Apenas correndo em meia.

 

……………………………….

 

Porque pois de mim te afastas,

Fantasma? Porque te esvais?

Deixou-me; somente escuto

Ao longe seus frouxos ais.

 

Tornou-se ao perpétuo leito,

Dorme no seio do nada,

Ante meus pés, nesta terra

Recentemente cavada.

 

Mas quem é?... Não, não me engano:

A última que aqui veio,

Foi tenra, inocente virgem,

Trança escura e branco seio.

 

Por pouco que a minha dextra

Este terreno escavasse,

Daria co..as mãos unidas

Tocaria a fria face.

 

Outrora Ninfa entre os homens,

Outrora os passos movia,

Era das festas a glória,

Dançava, cantava e ria.

 

De amores lisonjeiros

Vivia sempre cercada,

Com descantes amorosos

Era à noite acalentada.

 

Agora dorme esquecida,

Agora, já não é bela,

Ninguém celebra o seu nome,

Ninguém suspira por ela.

 

……………………………….

 

Tudo o que é belo entre os homens,

Aqui recebe a impressão

De afectos tristes, mas doces,

Bem doces ao coração.

 

Tudo o que é belo entre os homens

Aqui é belo, mas triste;

Todo o prazer neste sítio

Todo em lágrimas consiste.

……………………………….

 

 

Autor: António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Editado por: nicoladavid

 
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