"Inverno"

Noite profunda, noite impossível!

O alvor da neve, cobrindo tudo,
Torna o silêncio quase visível...
O alvo da neve cobrindo tudo.

São como espectros de coisas mortas
As grandes sombras dos arvoredos...
São como espectros de coisas mortas,
Lentos, dizendo graves segredos.

Noite profunda, céu sem estrelas...
Só na minha alma soluça o vento,
Só na minha alma rugem procelas,
Só na minha alma soluça o vento!

E a neve rola continuamente,
Na sua imensa desolação;

E a neve rola continuamente,
Mas cai-me toda
no coração.

A noite imensa tudo escurece,

Mas os meus olhos, da terra estranha,
Voam às praias que o sol aquece,

Às praias de oiro que o Tejo banha!

Ó meus amigos, quando eu morrer
Levai meu corpo despedaçado,

Para que possa, já sem sofrer,

Dormir na Morte mais descansado!

 

 

 

Nasci  à beira do rio Lima,
Rio saudoso, todo cristal;

Daí a angústia que me vitima,
Daí deriva todo o meu mal.

 

É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

 

São águas claras sempre cantando,
Verdes colinas, alvor de areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua cheia...

 

É funda a mágoa que me exaspera,
Negra a saudade que me devora...
Anos inteiros sem Primavera,
Manhãs escuras sem luz de aurora!

 

Ó meus amigos, quando eu morrer
Levai meu corpo despedaçado,

Para que eu possa, já sem sofrer,
Dormir na Morte mais descansado.

 

Olhos d' Aquela que eu estremeço,

Se de tão longe pudésseis ver-me!
Olhos divinos que eu nunca esqueço,
Morro de frio, vinde aquecer-me...

 

 

Autor: António Feijó (1859-1917)
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som.
 
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